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A nova geografia eleitoral no Brasil e nos EUA


20/11/2020 04:00

André Frota
Professor de relações internacionais, ciência política e geografia no Centro Universitário Internacional Uninter

O calendário político brasileiro e norte-americano encerra o mês com uma nova geografia eleitoral. Os resultados expressam novas prioridades da maioria da população de ambos os países. Seja nas eleições majoritárias nos Estados Unidos, seja nas eleições proporcionais no Brasil, as novas lideranças eleitas expressam o movimento de preferência do eleitor.

A maior parte do eleitor norte-americano interrompeu a onda conservadora representada pela fração do partido republicano na figura do presidente Donald Trump. Em uma eleição disputada voto a voto, frustrar a possibilidade de um segundo mandato de Trump é um sinal de que o eleitor estratégico, situado nos estados-chave, engajou-se em mudar o comando da Casa Branca para os democratas.

Em parte, esse resultado deve-se à estratégia eleitoral dos democratas de usar os votos pelo correio como uma fórmula de facilitar o voto. Uma decisão tática que utilizou as características do modelo de votação facultativo a favor de Joe Biden. Promover incentivos para o eleitor votar é um dos fundamentos do sucesso eleitoral nesse sistema.

Em segundo lugar, esse eleitor identificou a marca central da campanha: moderação e inclusão. Biden foi identificado por esse eleitor como o político de perfil moderado, disposto a costurar acordos e governar para toda a população.  Em contraste ao perfil de ruptura e de centralização de Donald Trump.  Mas foi sobretudo das ruas, da força social da população negra, e dos movimentos que ocuparam as ruas dos EUA, após a morte de George Floyd, que o partido Democrata soube incorporar para a candidatura o nome da vice-presidente e potencial presidenciável para 2024, a procuradora Kamala Harris.

Em meio ao choque exógeno da pandemia, a desaceleração econômica global e a crise humanitária derivam dos impactos desse evento. Os Estados Unidos redirecionaram os rumos da Casa Branca.

Na semana seguinte foi a vez de o eleitor brasileiro se manifestar. As eleições para vereadores e prefeitos no Brasil redefiniram a geografia eleitoral dos municípios brasileiros. Um termômetro para as eleições majoritárias de 2022. Assim como o novo perfil dos cabos eleitorais, que representam a base política de deputados, senadores, governadores e presidente. O federalismo brasileiro move-se politicamente pela influência mútua entre a força da elite política municipal e estadual. A elite municipal é a ponta do contato com o eleitor e o termômetro partidário do sistema. A elite estadual é o corpo e o cérebro desse sistema.

E qual é a nova fotografia da base municipal desse sistema político-eleitoral? Um avanço dos partidos de centro-direita, uma perda de força da direita extrema e uma reacomodação das novas forças da esquerda no Executivo municipal. O símbolo desse movimento pode ser ilustrado pelo crescimento do Partido Democrata, ocupando mais de 400 prefeituras no Brasil, e a perda de força do Partido dos Trabalhadores, ocupando menos de 200 prefeituras. Em 2012, esses números eram 200 e 600, respectivamente.

No caso da ascensão de novas lideranças de esquerda, o caso da disputa pela prefeitura da cidade de São Paulo, que é historicamente o município com maior potencial de projetar candidatos a presidente, a candidatura de Guilherme Boulos pelo Psol, é o símbolo desse movimento.  

Enfim, estabelecer paralelos entre dois países e sistemas políticos com histórias próprias é uma tarefa controversa. Cada qual tem uma dinâmica interna própria. No entanto, a cronologia das últimas semanas impôs essa comparação. Apesar de habitarmos territórios separados, existe um grau de interdependência que conecta os indivíduos. Os veículos de comunicação, a mídia internacional, os fluxos migratórios, as relações comerciais, a cooperação política, as relações diplomáticas diminuem essas distâncias e forçam o contato e os impactos. Claro, isso ocorre mais do Norte para o Sul. Da potência global para a potência regional.

Entretanto, encontramos paralelos. A nova geografia eleitoral nos EUA e no Brasil representa um movimento de retorno a uma direita moderada e a formação de novas lideranças progressistas com potencial de crescimento para os anos futuros. Biden e Harris representam isso nos EUA. O espaço ocupado pelo Centrão, acompanhado de lideranças progressistas com potencial de projeção nacional, como é o caso do Psol, é o símbolo desse movimento no Brasil.


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