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Estado de Minas

Reeleição em risco

Ao contrário do que muitos pensam, a reeleição de Bolsonaro não são favas contadas


28/10/2020 04:00

Márcio Coimbra
Coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político e mestre em ação política pela Universidad Rey Juan Carlos

Em seu movimento em direção ao Centrão, Bolsonaro acabou rifando parcelas de sua base eleitoral que foram essenciais para sua chegada ao Planalto. Ao descartar Moro, afastou os lava-jatistas e, posteriormente, acabou atingindo também liberais, conservadores, evangélicos e até antipetistas. Hoje, apesar de manter sua popularidade, a base que sustenta seus números é outra.

Refém do auxílio emergencial, Bolsonaro viu seus números inflarem diante de um instrumento de transferência de renda tão criticado por ele quando o petismo davas as cartas no Palácio do Planalto. Atualmente, o apoio ao presidente emerge do mesmo bastião sagrado do lulismo, os eleitores mais pobres que precisam do auxílio do governo para sobreviver.

Isso explica o movimento desesperado do governo para encontrar um caminho viável nas contas públicas para turbinar o Bolsa-Família e rebatizá-lo com assinatura de Bolsonaro como Renda Cidadã, transformando o mecanismo em instrumento de manutenção no poder. O problema é que a conta não fecha e parece ser impossível realizar tal feito sem estourar o teto de gastos, colocando em xeque a confiança externa do Brasil, podendo deteriorar ainda mais nossa economia.

Fato é que, ao mover-se para o Centrão, Bolsonaro também fez a opção de mover-se de sua base natural, com o objetivo de criar um novo eleitorado, que seja capaz de reconduzí-lo para mais um mandato no Planalto. Ao realizar esse movimento, se aproxima do eleitorado cativo do petismo, especialmente no Nordeste, mas se afasta daqueles que foram essenciais para sua vitória em 2018.

Isso começa a nos mostrar os caminhos abertos para seus opositores em 2022. Há um enorme flanco aberto na direita, especialmente diante do eleitorado que se sentiu traído pelos movimentos e alianças do presidente e que busca um novo líder que canalize suas insatisfações. Do centro pacificador ou nos bolsões da direita evangélica, lava-jatista, antipetista e conservadora pode surgir o grande adversário de Bolsonaro.

Isso explica por que o sonho do atual inquilino do Planalto é disputar um segundo turno com a esquerda. Nesse cenário, consegue se credenciar com a única alternativa e ainda avançar no eleitorado petista mediante um novo programa de transferência de renda. A opção que se abre para seus opositores é encontrar, ainda no primeiro turno, um nome que consiga atrair os antigos bolsonaristas órfãos e chegar no segundo turno, seja contra Bolsonaro, seja contra um nome da esquerda.

Ao contrário do que muitos pensam, a reeleição de Bolsonaro não são favas contadas. Existe a possibilidade, diante dos possíveis cenários, de o presidente, inclusive, não chegar ao segundo turno. Os políticos entenderam desde a última eleição que são incapazes de controlar o efeito manada do povo, mas que o melhor cenário é forçar o eleito a compor diante do cenário político. Bolsonaro lutará sozinho.

Ao rejeitar os grupos que criaram o efeito manada a seu favor e acreditar no modelo petista de vitória, Bolsonaro pode estar sepultando suas possibilidades de reeleição. 


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