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E então, a pandemia acabou?


24/10/2020 04:00

Aline da Silva Freitas
Professora de direito público da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas

Há meses não percebia a presença de aviões sobrevoando o local onde moro e, então, alguns dias atrás passei a percebê-los novamente, em pouco número, ainda tímidos. A sensação foi a de quem estava em um filme: após seis meses sem ouvir ou ver uma aeronave, lá estavam elas rumo aos mais variados destinos.

A pandemia acabou? Obviamente que não – muito menos a crise que se instaurou no setor mencionado, que levará ano ou mais para se reestruturar. O que vem acontecendo é um processo de reabertura, a qual, entretanto, não exclui a necessidade de consciência de que o modelo de vida de antes de 2020 jamais retornará.

Não, não sou pessimista, muito longe disso. Na verdade, penso que o que está sendo desenhado é algo novo, eis que muitas mudanças já estavam sendo demandadas e outras remodeladas e novas tornaram-se urgentes. Pelo que consta, por exemplo, o uso de máscaras será recomendado por longo tempo e um certo distanciamento social também.

Todos devem seguir sendo convidados e estimulados a pensar em hábitos básicos de higiene e em alguns cuidados "extras" em virtude do risco da COVID-19. Isso exigirá muito das pessoas ainda, só que também do Estado. Das pessoas espera-se o senso de coletivo, da tomada de decisões pessoais de menor risco possível ao próximo.

Já o Estado – e não nos esqueçamos de que cada um de nós é povo e, também, de certa forma, o Estado – precisará seguir investindo em saneamento básico e na saúde preventiva – além de todos os outros direitos humanos fundamentais, por óbvio, eis que interdependentes e complementares.

Fato é que o Brasil é extremamente desigual e ainda são encontrados aqueles sem, por exemplo, acesso à água potável e saneamento. Fica difícil imaginar que o coronavírus deixará de ser um problema no país diante desse dado e de outros. Aliás, os efeitos imediatos começaram a ser sentidos em larga escala, tal como o aumento de pessoas em situação de rua e essas e muitas outras sem qualquer renda etc.

O cenário que se desenha é, para a grande maioria, de incertezas, insegurança e medo. Há muita vulnerabilidade social e talvez essa venha a ser ainda maior caso medidas não sejam tomadas. Em resumo, o uso de máscaras e o distanciamento são parte da solução, porém não o todo.

Um voo panorâmico talvez nos ajude a refletir a questão e a afirmar que a pandemia não acabou e que para que seja possível estabelecer seu fim será necessário, entre outros, pousar. Não apenas, também deveremos agir nos mais variados frontes, dentro das nossas infinitas possibilidades, pois viver em sociedade é exatamente assim: um constante exercício em responder, com ações, 'como podemos melhorar?'.


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