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Os tentáculos de Moscou

A Rússia precisa aceitar a independência de suas antigas repúblicas, respeitar suas instituições democráticas e sua autodeterminação


19/10/2020 04:00

Márcio Coimbra
Coordenador da pós-graduação em relações institucionais e governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília


A Rússia nunca enxergou a autonomia dos antigos países-satélites da extinta União Soviética com bons olhos. Moscou sempre monitorou, interveio ou tutelou essas nações, desde as mais rebeldes, como aquelas do Báltico, até as mais próximos, que ainda mantêm relações estreitas com o Kremlin.

Curiosamente, os russos enfrentam, hoje, uma crise tripla. Quatro de suas antigas repúblicas enfrentam graves situações políticas. A primeira delas é Belarus, tutelada por Moscou, que mais uma vez enfrentou fraude em seu processo eleitoral. Lukashenko, o ditador que governa o país desde 1994, busca continuar no poder sob o olhar complacente de Putin, recebendo orientações do Kremlin.

A oposição foi varrida do mapa. Está no exílio e tenta ainda a derrubada do governo. A líder da oposição, Svetlana Tikhanovskaya, está na Alemanha. A imprensa estrangeira foi expulsa do país e as ruas seguem sendo tomadas pela população, que exige um processo transparente e democrático. Os governos europeus fazem pressão pelo fim da autocracia de Lukashenko, que cada vez mais se aproxima de Putin.

Do outro lado da Rússia, na Ásia Central, outra antiga república, o Quirguistão, entrou em convulsão. Ali, a situação é também delicada e, assim como em Belarus, existe uma posição geopolítica que Putin precisa preservar. A nação da Ásia Central é estratégica, pois funciona como barreira ao extremismo islâmico e ao avanço chinês na fronteira russa.

O problema no Quirguistão, assim como em Belarus, é uma fraude eleitoral. O primeiro-ministro, Kubatbek Boronov, renunciou ao cargo. Os protestos seguem. Há chance real de dissolução do Parlamento e renúncia presidencial. O país sempre foi próximo de Moscou, que inclusive tem uma importante base aérea em seu território. O essencial para Putin é não perder o controle velado sobre a ex-república soviética.

Como se não fosse o bastante, Armênia e Azerbaidjão se enfrentam mais uma vez na região de Nagorno-Karabakh, levando instabilidade ao Cáucaso e ao equilíbrio de poder que engloba Turquia, Irã e inclusive a Síria. Tudo sob o olhar atento da Rússia. O drama humanitário segue sendo também uma preocupação. Quase 50% da população foi deslocada e 90% dos afetados são mulheres e menores de idade. Estamos falando de algo entre 70 mil e 75 mil pessoas – 99% da população é armênia e deseja a independência.

A crise segue com Bashar Assad, presidente da Síria, acusando a Turquia de incitar o conflito em favor do Azerbaidjão, e o Irã alertando que irá reagir caso a crise atravesse suas fronteiras. Ao mesmo tempo, a Rússia temuma aliança com a Armênia e pode intervir militarmente no jogo, se necessário. Moscou fez ecoar as preocupações de seu aliado sírio Bashar Assad sobre a possível existência de mercenários na região.

Na verdade, a presença de mercenários é uma prática russa já fartamente denunciada na imprensa internacional. A empresa paramilitar privada Wagner, que oficialmente não existe, mas é controlada por um aliado de Putin, Yevgeny Prigozhin, faz incursões pelas antigas repúblicas soviéticas, Oriente Médio e zonas de interesse de Moscou. Recentemente, estiveram em Belarus, onde foram presos em Minsk, e também foram ativos durante a crise na Ucrânia, em 2014, e posterior anexação da Crimeia. As ações do grupo também foram sentidas na Líbia, República Centro-Africana, Sudão, Madagascar, Moçambique e naturalmente Síria, em defesa de Bashar Assad. O grupo recentemente expandiu as ações para a América Latina, em especial a Venezuela, com o objetivo de manter Nicolás Maduro no poder.

Os tentáculos da Rússia também atingem antigos países da Cortina de Ferro, como a Macedônia do Norte, que depois de ter um governo aliado de Moscou por cerca de 10 anos, ainda sofre com a antiga tutela. Moscou não admite que a nação, estrategicamente situada nos Bálcãs, passe a gravitar em torno do Ocidente. Assim, o país acabou sendo vítima de uma pesada campanha digital com o objetivo de desequilibrar as eleições e a democracia, mesmo método utilizado nas eleições americanas, Brexit e outras frentes em diversos países do mundo. Curiosamente, a Macedônia do Norte se tornou conhecida por ser um dos maiores centros difusores de fake news do mundo. Uma preocupante convergência.

Seja por intermédio de fake news ou manipulação de mídias e redes sociais, a Rússia está intimamente envolvida com a prática de desestabilizar democracias e direcionar processos eleitorais de acordo com seus interesses. Não é por acaso que as crises em Belarus e no Quirguistão têm a mesma origem de fraude eleitoral. Na frente militar, o Cáucaso pode estar sofrendo, também, as incursões de grupos paramilitares privados para defender os interesses de Moscou. Uma clara violação das regras internacionais e um desrespeito à soberania de países autônomos e livres.

Ao enxergar seus interesses em risco em países que são indiretamente controlados pelo Kremlin, Moscou está agindo, sempre mediante práticas condenáveis e pouco ortodoxas. Belarus merece eleições livres como forma de consolidar uma democracia que ainda deseja nascer. No Quirguistão, os fantoches russos precisam dar lugar às verdadeiras lideranças políticas locais que forneçam real autonomia para a região. No Cáucaso, a mediação do conflito deve ser realizada por nações democráticas, como ocorreu no passado. Se o jogo de interesses russo, sírio e turco seguir manipulando a região, Armênia e Azerbaijão podem gerar imensa instabilidade, com chance de um conflito extrapolar suas fronteiras.

A Rússia precisa aceitar a independência de suas antigas repúblicas, respeitar suas instituições democráticas e sua autodeterminação. Seu jogo de sabotagem mercenário-digital-eleitoral tornou-se pesado e desproporcional, tornando-se o catalisador de instabilidade em diversas nações.


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