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Estado de Minas

Estilos, genocídio, belos e destroçados horizontes


21/09/2020 04:00

Fábio P. Doyle
Da Academia Mineira de Letras
Jornalista


Dois ex-presidentes da República, FHC e Michel Temer, deram uma entrevista a uma TV. Como a moda pandêmica é a de reproduzir programas e novelas já exibidos, o que me foi mandado por um amigo, pelo jeito, faz parte da moda. O que não me impede de comentar o que vi e ouvi.

Foram explicitados na entrevista dois estilos de fazer política, e nem poderia ser diferente. Cada qual com seu jeito de agir e de expor seu pensamento, suas convicções.

Temer, dicção e vernáculo impecáveis, respondeu e revelou seu pensamento sobre vários temas, alguns bem delicados, com objetividade, com a austeridade e clareza habituais, sem se perder, como bom jornalista que deve ter sido, em firulas inúteis. E foi ponderado ao relacionar as muitas reformas que conseguiu implantar, entre elas a que fixou um teto máximo permitido para as contas públicas, não mencionando a que talvez fosse a mais importante da sua gestão, a da Previdência.

Encaminhada por ele ao Congresso, foi engavetada pelo presidente da Câmara dos Deputados, já então o Sr. Rodrigo Maia.

Quanto ao Sr. FHC, não fugiu ao habitual. Falou muito, fofocou nas entrelinhas para não assumir a maldade. Ao ser indagado se o mensalão, que revelou tantas falcatruas no governo petista (e no dele, FHC), teria influído para a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência, chegou a dizer que o   atual presidente, que ele detesta, foi eleito com base em um programa negativo: não à corrupção, não à baixa politicagem, não ao toma lá dá cá – a memória não guardou toda a baboseira. Será que FHC recomendaria uma campanha positiva, a do sim para a corrupção, para a baixa politicagem, para a roubalheira? Não acredito. Deve ter sido um tropeço no discurso. Aliás, longo, cansativo. Ao contrário daquele do modesto e austero Michel.

Faço apenas um registro da entrevista que deve ter sido dada, parece-me que à CNN, há algum tempo. Os dois, se me permitem, já estariam fora do baralho. Embora no Brasil o carteado político seja sempre cheio de surpresas.

Genocídio 
Discute-se muito sobre genocídios, quem matou mais, se foi Stalin, dizimando os inimigos; Mão Tsé, na China; Hitler, no Holocausto dos judeus?. Mas poucos mencionam a matança de indígenas, donos das terras, pelos espanhóis que "descobriram" em 1492 as Américas, e pelos portugueses "descobridores" do Brasil, em 1500.

Quando Pedro Álvares Cabral aportou em nossas praias, o Brasil era habitado por 3 milhões a 5 milhões de indígenas. (Como conseguiram contar?) Os donos da terra, ingênuos, sem maldade, se encantaram com aqueles "deuses" barbudos e vestidos. Deram a eles alimentos, frutas, água, enfim, condições de sobreviver. E os levaram até as minas de onde tiravam o ouro que enfeitava seus corpos nus.

Roubar os tesouros dos pobres indígenas e descobrir onde conseguir alimentos, sem a ajuda e possível reação deles, tornou-se fácil para os invasores. Mem de Sá, governador-geral da nova terra, nomeado pela corte de Lisboa, não teve nenhum escrúpulo: mandou destruir e incendiar todas as aldeias habitadas pelos bondosos anfitriões, e matar todos os seus habitantes!

Mem de Sá e seguidores são hoje nomes de ruas, avenidas, praças em BH e em todo o Brasil. Ressalvar, se possível: naquele tempo, matar índio não era crime...

Resultado óbvio da matança impiedosa. Menos de 100 anos depois do "decobrimento" do Brasil (é assim que aprendemos nas escolas primárias e secundárias do meu tempo), dos 3 milhões a 5 milhões restavam 500 mil.

A matança covarde, revoltante, não parou. Na metade do século passado, a população aborígene não chegava a 70 mil. Hoje, muito menos.

Quem os salvará do extermínio total?

Por falar em extermínio, nossas belíssimas montanhas também correm risco. Empresas mineradoras querem acabar com elas. Abrem buracos descomunais, tiram milhões de toneladas de minério, enriquecem seus donos, a maioria estrangeiros, esgotam a riqueza do solo e vão embora sem dizer obrigado. Estranho que nos contratos não se exija a recuperação da área esburacada. Agora, a bilionária Gerdau, que já destruiu uma face da antes belíssima Serra da Moeda, insiste em renovar por 10 anos a concessão, que acaba no fim do ano. Dizem que já "conquistou" maioria na Assembleia mineira. O governador Romeu Zema concordará?

Belo Horizonte já não tem o horizonte de montanhas, como a da Serra do Curral, que a fez bela. E recordo o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade que escreveu, ao voltar à cidade depois de algum tempo ausente: "Meu Belo e destroçado Horizonte".


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