Mônica Meyer
Bióloga, escritora, ex-diretora do Museu de História Natural e Jardim Botânico da
UFMG (1999-2005)
O incêndio nas salas do acervo técnico do Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG, simbolicamente, representa a educação e a cultura do país. O (des)governo Bolsonaro cortou as verbas para as universidades federais, exterminou programas de bolsas de iniciação e de pesquisa e agora ameaça a autonomia acadêmica. O desejo ardente do presidente e do ministro da Educação é de acabar com a comunidade científica, com as pesquisas, o ensino e a extensão universitária.
Em meio à pandemia, instauraram o pandemônio. O acervo arquitetônico, histórico, arqueológico, paleontológico, antropológico, biológico é um patrimônio brasileiro, memória nacional, raízes de culturas genuínas e singulares. As salas da reserva técnica do museu transformaram-se em escombros e cinzas. Restaram as paredes. Essas salas integravam uma edificação datada das primeiras quatro décadas do século passado, quando ali funcionava o Instituto Agronômico.
Além da destruição desse imóvel histórico, a maioria do acervo se queimou, uma perda irreparável e incalculável. Artefatos arqueológicos de mais de 12 mil anos, coleções entomológicas das décadas de 1930 e 1940, arte plumária e cerâmicas do Vale do Jequitinhonha impregnadas de saberes milenares da cultura indígena, um patrimônio que ardeu com as chamas.
Destaca-se na reserva técnica a coleção denominada Harold Walther, homenagem ao cônsul inglês e doada pela família à UFMG. Essa coleção, considerada a maior que se tenha notícia do Homem de Lagoa Santa, reunia cerca de 38 crânios. Resultado de um trabalho primoroso dos pesquisadores Aníbal Mattos, Arnaldo Artoud e Harold Walther entre as décadas de 1930 e 1950. Os primeiros exemplares biológicos do museu foram doados pelo professor Amílcar Vianna Martins e pelo antigo funcionário e colecionador do Instituto Agronômico Moacyr Castilho, amante das ciências naturais. Grande parte da coleção entomológica veio transferida da antiga Faculdade de Filosofia, onde funcionava, inicialmente, o curso de história natural. Essa coleção preservada e guardada em armários especiais de madeira de lei, pinho-de-riga, se destacava em diversidade e beleza.
Não se monta um acervo museológico da noite para dia; são anos de trabalho e coleta persistente e sistemática de pesquisadores e técnicos que vivem, atualmente, com minguados, mixurucas e apertados orçamentos de pesquisa. Em questão de minutos, as línguas de fogo lambem a história e o conhecimento para sempre.
Fácil é destruir, matar, desmatar, queimar, incinerar. Difícil é o processo de construção e lento o de conhecer. Fácil é rotular as universidades de antro de comunistas, de balbúrdia. Difícil é não se acomodar e fazer com coragem uma gestão universitária com parcos recursos (in)suficientes para manter a mínima infraestrutura e às vezes nem isso.
Do fogo restaram brasas. Novas chamas na esperança de novos tempos. Como disse o poeta, o amor é um fogo que se arde sem se ver. Que o amor ao conhecimento e ao saber nos acalente e se transforme em novas chamas. Que a memória do Museu Nacional, do Museu da Língua Portuguesa e do Museu de História Natural nos fortaleçam para novas batalhas.