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Estado de Minas

Pedofilia na quarentena: dura realidade


postado em 24/05/2020 04:00

Maria Consentino
Juíza do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar

Estamos no mês do combate à violência sexual infantil, cujas campanhas educativas de prevenção assolam os estados brasileiros, como forma de coibir essa prática repugnante e tão recorrente na sociedade.

Como juíza à frente de uma vara de violência doméstica e familiar, posso afirmar que a pedofilia é uma assustadora realidade, e o lugar que deveria ser o porto seguro da criança é onde sórdidas intervenções de cunho sexuais praticadas por pais, mães, avós, tios, padrastos são mais reais do que se imagina.

O isolamento social em razão da pandemia do coronavírus, infelizmente, traz graves efeitos colaterais, dos quais se destaca a violência doméstica e os abusos sexuais contra crianças. Óbvio que esse problema não é novo. Ocorre que a tensão inerente ao momento, o aumento do consumo do álcool são gatilhos que favorecem o aumento desse comportamento reprovável, preexistente, mas certamente intensificado no enclausuramento.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado de Minas Gerais, entre os meses de janeiro e setembro de 2019, foram registrados 2.270 estupros de vulneráveis em Minas Gerais, ou seja, oito crianças ou adolescentes até 14 anos, por dia, foram vítimas de crimes sexuais, sendo que mais de 70% foi praticado no ambiente familiar e doméstico.

Na prática, o que observamos com bastante frequência é que a vítima com tenra idade não identifica a violência sexual, pois, dentro da sua percepção, não consegue diferenciar o afeto do erótico. À medida que ela cresce, começa a compreender que se trata, sim, de agressão, e, a partir daí, inicia-se a relação de autoridade do agressor e medo, com ameaças, manipulação e culpa.

A pessoa que agride sempre exerce um controle sobre a vítima, quer seja por ser mais inteligente, com o intelectual mais avançado, ou exerce o controle por força física, ameaças ou exploração da autoridade. É bastante frequente as vítimas abusadas sexualmente por longo tempo só criarem forças para romper o silêncio na fase adulta.

Também é muito comum as denúncias serem feitas pelos professores ou parentes que começam a observar alteração no comportamento da vítima. Infelizmente, quando se descobre a verdade sobre a triste realidade que a criança viveu ou está vivendo, ela já foi vítima de abuso sexual de longa data, e as dores e traumas estão marcados em seu psicológico, muitas vezes irreparáveis.

O que mais nos estarrece são as pesquisas recentes que demonstram um retrato muito cruel: apenas 8% das vítimas de violência sexual chegam a registrar a ocorrência. E causa mais agonia, ainda, pensar que agora, na quarentena escolar, inúmeras vítimas estão no mesmo convívio do seu agressor, durante 24 horas, sendo objeto de experiências sexuais de agressores doentes, portadores de distúrbios de desejos e fantasias com crianças.

Portanto, as subnotificações, intensificadas na quarentena, são realmente uma realidade. É imprescindível muita conversa dos pais e pessoas próximas alertando crianças e adolescentes para esse perigo real, e, o pior, que sejam conscientizados de que esse inimigo está dentro do ambiente familiar e doméstico – este segundo diz respeito às pessoas próximas que não sejam exclusivamente parentes.

Costumo dizer: se a intuição desconfia de algo, ainda que seja de alguém muito próximo, siga ela. O princípio que vigora é: na dúvida, sempre se proteja! Melhor prevenir do que remediar o irremediável, no caso, um futuro adulto com graves problemas emocionais, sociais e sexuais, e, consequentemente, uma sociedade infestada de personagens enfraquecidos de alma e espírito, com baixa autoestima, sem criatividade, capacidade de pensamento lógico, crítica e facilmente manipuláveis.

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