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Estado de Minas

A escola da fronteira


postado em 24/05/2020 04:00

Aleluia Heringer
Doutora em educação pela UFMG e diretora do Colégio Santo Agostinho – Contagem

 Marina tem 7 anos e mora em uma área rural. Naquela manhã, acordou animada. Aprontou-se, colocou o laço de fita no cabelo e aguardou o momento da primeira live. Não via a hora de rever a professora. Quando aproximava o tão esperado momento, começou a ficar aflita, pois não conseguia entrar na sala virtual. A mãe dela, vendo a situação, ligou para a escola, querendo entender o problema.

Foi instruída a procurar um local onde o sinal da internet fosse melhor; no que a mãe disse: "É lá na porteira!". Lá se foi Marina correndo, enquanto a mãe carregava a mesinha, cadernos, cadeira. Mesmo um pouco atrasada, conseguiu acompanhar a aula. Recebemos sua foto, sentada à mesinha, o que a fez ser conhecida por nós, carinhosamente, como a menina da porteira.

Essa história é real e emblemática. Simboliza aquilo que escolas, estudantes e famílias estão vivendo desde 18 de março de 2020. Se a porteira representa o limite que separa uma propriedade da outra, a escola da fronteira representa todo o tensionamento que o momento lhe impôs.

Escola básica foi construída em cima da presença. A sociabilidade é o meio pelo qual a aprendizagem acontece. É preciso o outro para nos constituirmos como sujeitos. Transpor essa realidade para o mundo virtual é uma operação de alta complexidade e que não se resolve "dando cliques". Por outro lado, é o que temos de melhor diante daquilo que estamos vivendo. A generosidade, sensibilidade e compreensão dos limites impostos nos salvarão do desgaste e tensionamento entre escola, família e estudantes.

Cada um está em casa ao seu modo, com e sem condições físicas, tecnológicas e humanas. Não existem solução ou respostas que atenderão de maneira satisfatória à mesma comunidade. Temos crianças que precisam ir para a porteira; professoras com filhos pequenos que gravam suas aulas já tarde da noite; pais da área da saúde que não podem acompanhar seus filhos; para não dizer daqueles que nem escola e casa têm. Precisamos reconhecer e valorizar a forma honesta e possível como as pessoas estão tentando dar conta da situação.

Querer manter o grau de exigência com todos os envolvidos e com os processos que executam, como se houvesse normalidade e culpados, além de ser ingênuo é injusto. É recomendável que, em tempos de escassez e crise, a energia e a inteligência coletiva sejam canalizadas para aquilo que é relevante e altamente prioritário e, no caso da escola, que beneficie, principalmente, crianças e jovens estudantes. O discernimento daquilo que é secundário será decisivo para nossa sobrevivência. A escola e a menina da porteira são excepcionalidades. Sossegai! Não ficaremos para sempre na fronteira.

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