Gilson E. Fonseca
Sócio e diretor da Soluções em Engenharia Geotécnica Ltda (Soegeo)
Estamos vivendo um momento de ansiedade, angústia e medos que, com as devidas proporções, faz lembrar o período da Segunda Guerra Mundial. É normal que a compreensão de o "viver", entre as pessoas, seja diferente pelas circunstâncias e situações que cada um vive. É difícil imaginar um astro de cinema ou de futebol, rodeado de glórias e riquezas, ver a vida igual a um tetraplégico, moradores de rua ou mesmo um flagelado vítima da seca, como no Nordeste, e que sentem todas as dores e tristezas, especialmente a fome. Mas será que é lícito, na visão filosófica, quem sofre tanto ver a vida como um fardo pesado para carregar ou rebelar-se e, na ótica religiosa, sem incorrer na blasfêmia, como apregoa o cristianismo? A resposta é difícil, o assunto é complexo, mas, pelo menos, devemos compreender mais quando as situações dos outros são diferentes das nossas.
Guimarães Rosa chegou a dizer "viver é perigoso". Sua personagem Diadorim, no livro Grande sertões: veredas, disse: "Tristeza, passe depressa... passe depressa, para as alegrias poderem vir logo". O mestre do cinema japonês Akira Kurosawa, no seu filme de nome Viver, mostra com frieza e realismo a dificuldade de um funcionário público. Sem motivação no trabalho, apenas carimbando papéis, muito aquém da sua capacidade, entrou em extrema depressão porque não encontrava o verdadeiro sentido da vida. Só o encontrou depois de passar por uma grave doença e lutou, freneticamente para viver.
O exercício da religião ajuda muito no enfrentamento dos problemas da vida, como, por exemplo, o luto de uma pessoa amada. Quem não acredita na dualidade de nossas vidas, isto é, corpo e alma, terá maior dificuldade para compreender a nossa curta estada na Terra, sujeita a tantos sofrimentos. Portanto, a vida não é só de alegrias e prazeres hollywoodianos; medos, angústias, tristezas são componentes inevitáveis. O casamento, que pode trazer grandes alegrias, também não exclui riscos. O amor que surge e cresce com a esposa e os filhos, anda junto com o medo de tudo que ameace o bem deles. Saber entender a vida é a mesma coisa que buscar a felicidade, basta nos lembrarmos dos versos do poeta Vicente de Carvalho para ver que, às vezes, ela se parece amarga pela própria incompreensão nossa: "A felicidade que supomos... está sempre apenas onde a pomos, mas nunca a pomos onde nós estamos".
Viver então é exercitar nossos instintos, preservar e ascender nosso espírito, sem medos maiores, deixando também as coisas acontecerem, como na música cantada por Doris Day – what will be, will be... The future not us to see" (O que será, será... o futuro não é para nós vermos). Valorizar a vida como nosso bem maior, mesmo com toda preocupação e riscos, ainda é o melhor caminho para o verdadeiro viver. Já dizia Gonçalves Dias: "A vida é luta renhida, que aos fracos abate e aos bravos e fortes só pode exaltar". A COVID-19 desafia o mundo, mas terá o lado bom ao nos suscitar a buscar forças nos princípios filosóficos e na fé para fortalecer nosso espírito. Neste período cinzento, é fundamental, também, pensar que outras pessoas dependem de nossas atitudes e o pessimismo só atrapalha.