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O mundo já mudou


postado em 21/04/2020 04:00






Julio Cesar Peclat de Oliveira
Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia 
e de Cirurgia Vascular (SBACV)

Por meio dos noticiários, acompanhamos, no final do ano passado, informações sobre mais uma "gripe asiática". Parecia ser uma dessas viroses que circulam em uma cultura que ainda nos parece esquisita, com seus hábitos alimentares tão peculiares, exibidos na mídia. De fato, parecia ser mais uma daquelas coisas que acontecem em um mundo à parte chamado China e que se resolve por lá. O mistério, as notícias pela metade, os boatos e teorias da conspiração tão próprios dessa nossa época, retratados em centenas de canais no YouTube, faziam tudo parecer tão longe... tão remoto...

Depois vieram as primeiras notícias da Europa, mas ainda parecia que estávamos imunes: coisa do hemisfério norte que, certamente, se resolveria rapidamente: afinal, estava na Europa e alguém faria alguma coisa...

Entramos no jogo quando o Brasil se viu torcendo pelo resgate dos brasileiros que estavam em Wuhan, o primeiro epicentro da então epidemia... Era véspera de carnaval, aquela época do ano em que adiamos pensar em problemas para ir às ruas "celebrar", "brincar", o que quer que isso signifique. Ninguém ocupava espaço significativo na mídia para falar em medidas protetivas.

Aí veio a confirmação de uma frase feita: "No Brasil, o ano começa depois do carnaval!", quando tivemos notícias dos primeiros casos, chamados de "importados", ou seja, não eram "nossos". Usando uma expressão que só as pessoas mais velhas entenderão, foi ali que a "ficha começou a cair", principalmente entre as pessoas que viajavam para o exterior.

Pensando em tudo isso dessa forma, tenho a sensação de que se passou um longo tempo: os últimos quatro ou cinco meses foram intensos demais! Nossa rotina foi sendo bruscamente alterada e, subitamente, nos demos conta que estamos em uma guerra, e que a guerra do nosso século, ironicamente, não é tecnológica, não é espacial ou atômica como acreditaríamos dentro do rumo que nossa história seguia. Nosso inimigo é elementar, básico e tem o objetivo de todo ser vivo: sobreviver e se reproduzir.

Estamos em uma guerra que é de fato mundial e sem que seja possível, mesmo com toda a tecnologia disponível, prever o que acontecerá e sua extensão ao longo do tempo.

Nessa guerra, nós, profissionais da saúde, somos a linha de frente. Somos aqueles que encaram o inimigo, que dia após dia buscam reduzir as estatísticas fatais. Como qualquer soldado, cada um de nós conhece sua missão e não tem medo da batalha. Cada um de nós reconhece o seu papel e sabe o juramento que, com tanto orgulho, fez. Mas, ainda como qualquer soldado, esperamos entrar no campo de batalha com os equipamentos necessários para que possamos ter nosso foco naquilo que nos motiva: salvar vidas!

Esperamos que nossos comandantes tenham planos concretos e que saibam para onde nos guiam. Afinal, somos seres humanos, pais, mães, avós e filhos de alguém. Queremos nos doar, e esperamos voltar para nossas casas, para nossas famílias, depois de cumprir nossa missão diária.

Vemos chegar às emergências pacientes assustados, inseguros com o bombardeio de notícias nas mídias, que, evidentemente, temem por sua vida e pelo contágio pelo coronavírus. Mas também temos pacientes que sofrem de diferentes doenças e esperam contar conosco, que precisam de nossa assistência e não sabem o que priorizar: seu problema crônico ou a preservação quanto ao novo mal. Somos aqueles que precisam ajudar nessa difícil escolha.

Somos soldados, mas também somos médicos, e médicos devem ser capazes de tratar e apoiar seus pacientes. Afinal, como disse o ex-ministro da Saúde Mandetta recentemente, "médico não abandona paciente", e isso é mais profundo do que muita gente pode pensar...

Neste momento, há pacientes em todo o mundo morrendo pela COVID-19. É triste pensar que sem uma despedida de seus familiares, sem esse carinho...

O olhar de desalento dos familiares e dos pacientes, de carência mesmo, de alguém que espera ouvir notícias que não temos como dar, vai nos assombrar como nossos fantasmas de guerra durante muitos anos. Mas nós estamos e estaremos lá. Não como antes de tudo isso, não como éramos, pois quem fomos já não existe mais.


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