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Estado de Minas

Não importa os meios


postado em 29/03/2020 04:00

Otacílio Lage
Jornalista

 

Nos dias de hoje, banaliza-se tudo, até a vida - mata-se por nada -; gratidão é uma palavra que saiu da cartilha de muita gente; o imediatismo engole multidões; a ganância está no topo das razões de muitas desavenças familiares e comerciais. Para alcançar um fim, lança-se mão de artífices e artimanhas como meios. No seio da sociedade, há excesso de exclusivismo, individualismo, omissão e intriga - levar vantagem em tudo campeia em todos os seus segmentos.
Numa pequena cidade da Zona da Mata mineira, nos idos de 1960, uma viúva, no dia que terminou o luto de um ano que cumpria, deixou de lado as roupas pretas, como era o costume de então, e vestiu um vestido com estampas floridas para ir à missa. Ao deixar a igreja, foi cortejada até em casa por um antigo admirador. Chovia muito. A mulher convidou o homem para entrar. Vinte minutos depois de pedir à empregada para fazer café, foi à cozinha para saber o porquê de tanta demora. "Senhora, a lenha está molhada e não consigo acender o fogo", explicou a auxiliar. "Não tem problema, rache o santo", autorizou a dona da casa. Uma imagem de São Francisco, de 80 centímetros de altura, esculpida em madeira de lei, claro, sequíssima, foi parar no fogão a lenha. A peça, por sinal, era tida como uma relíquia pelo falecido marido.

Quem leu o livro O príncipe, de Nicolau Maquiavel (3/5/1469-21/6/1527), editado em 1532, ficou sabendo que naquela época não havia democracia; a estabilidade era valor mais importante. A obra provocou uma revolução no pensamento político do século 16: o pragmatismo passou a imperar sobre a moral. Até hoje, especialista algum fala de política sem citar a obra de Maquiavel, tanto que o nome dele virou sinônimo de crueldade e frieza, mas muitos contestam essa leitura negativa do que o filósofo escreveu em 100 páginas. Maquiavel foi cirúrgico na sua análise realista do mundo político, ambiente em que nada é o que parece.

A Itália de então estava dividida em províncias que lutavam entre si. É nesse cenário que Maquiavel concebe a ideia de uma estabilidade política que não emana de Deus, nem tampouco de sistemas políticos, mas de governantes que saibam ter o poder não mãos num mundo de incertezas. Para o filósofo, um soberano precisa ter liberdade para agir como bem entender a fim de garantir a segurança e a paz da população. Não deveria se afastar do bem, mas saber valer-se do mal, se necessário.

Foi Maquiavel que lançou a ideia de valores políticos medidos pela prática e utilidade social - um discurso que pode ser apropriado por governantes que roubam, mas fazem. Em O príncipe, ele mostra que a quebra de promessas, a mentira, a dissimulação e até o assassinato de inimigos são intrínsecos à política, embora não recomende adotar a maldade como regra - apenas porque a maldade pode enfurecer o povo e trazer instabilidade, o que não é desejável.

Os fins justificam os meios, frase que não consta no livro e que nunca foi escrita por Maquiavel, se tornou o melhor resumo do seu pensamento. Contudo, Maquiavel não dá instruções rígidas para um governante sobreviver no poder. Nas entrelinhas, ele recomenda que político não pode adotar uma receita fixa para conduzir um governo; ele precisa aprender a se adaptar às circunstâncias, tomando decisões conforme o cenário de momento - 488 anos depois, sua ideia continua atual.

Hoje, mais do que nunca, para entender a política praticada no Brasil e mundo afora, quem não leu O príncipe, de Nicolau Maquiavel, deve fazê-lo para refletir sobre por que algumas pessoas são o que são. Creio que, sem saber, a viúva, ao mandar a empregada rachar o santo para fazer fogo e agradar o admirador com um café bem quente numa manhã chuvosa, cumpriu, religiosamente, a máxima de que os fins justificam os meios, a exemplo do que muitos de nossos governantes andam praticando. Dane-se o povo.

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