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Manteremos a vida, ainda que não tão bela assim


postado em 28/03/2020 04:00





Fernanda Zacharewicz
Psicanalista, doutora em psicologia social pela PUC/SP 
e editora da Aller editora

Sou do tipo que dorme cedo e moro em um bairro supersilencioso. O silêncio reinava na noite de ontem, como sempre. Já estava na cama quando resolvi dar uma última olhada no Facebook e vi as diversas postagens sobre o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro. Faço questão de      usar aqui o título que esse ex-parlamentar adquiriu através do voto, em eleições diretas, o direito de usar.

Não fui eu quem o outorgou, mas foi minha vizinha, os pais dos colegas das minhas filhas, alguns de meus familiares e aqueles que hoje se assustam com as afirmações do candidato que escolheram. Agora, eu me pergunto: isso já não estava anunciado? O pronunciamento da noite do dia 24 de março de 2020, em plena crise da Covid-19, surpreende alguém?.

Segunda-feira, assisti ao filme A vida é bela, de Roberto Benigni, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999. Havia assistido quando foi lançado. Odiei, achei de uma idiotice tamanha que nem conseguia pensar a respeito. Agora, em tempos de quarentena, lembrei-me dele e decidi assistir novamente. E uma outra cena me tomou.

Guido, o personagem principal, é judeu e trabalha como garçom em um hotel luxuoso na Itália pré-Segunda Guerra Mundial. Há um hóspede médico a quem ele serve e com quem estabelece algum laço de camaradagem baseado nas adivinhas de linguagem que costumam trocar. Passados alguns anos e já prisioneiro no campo de concentração, o protagonista reencontra esse médico, que agora serve no Exército nazista. Com o esforço de Guido, o médico o reconhece e o convoca a servir no jantar de oficiais. Em dado momento, os dois se encontram em um local que não podem ser ouvidos pelos outros e Guido tenta pedir socorro. O médico, com as feições muito abaladas, quase aterrorizado, pede a ajuda de Guido para decifrar um enigma que não logra desvelar.

Suponho que, naquele momento, Guido se deu conta de que sua vida não tinha algum valor para esse sujeito. Isso fica claro também na fala de Bolsonaro. Lembrei-me de um trecho de Eichmann em Jerusalém: "Nunca matei um judeu, nem um não judeu – nunca matei nenhum ser humano. Nunca dei ordem para matar fosse um judeu, fosse um não judeu; simplesmente, não fiz isso".

Eichmann, alegando-se sionista, no início queria o evacuamento do povo judeu. Para isso não planejava a construção de rodovias, mas "tudo o que eu queria e planejava fazer, o destino impedia de alguma forma. Eu ficava frustrado com tudo, absolutamente tudo." E que ingênuos são os que pensaram que alguma frustração no planejamento executado por Eichmann poderia trazer algum alívio aos judeus! Todo o contrário, a segunda etapa foi a opção pelo extermínio.

Será que aí também são antecipadas as consequências das diversas vezes em que Bolsonaro "volta atrás" de suas declarações? O pronunciamento da noite de 24 de março de 2020 aponta, sem dúvidas, para o genocídio do povo brasileiro.

Desvio-me do objetivo de minha escrita nesta manhã. Volto ao filme A vida é bela. Guido faz do tempo de confinamento um grande jogo para seu filho pequeno. Mas, longe de posicionar-se do lado da paixão pela ignorância, sabe fazer com o que se apresenta. Ensina o filho a se esconder, o que o mantém vivo até a chegada dos aliados. Com isso, retorna-me a pergunta: qual a parte que me cabe nesse momento?. Cabe a mim, enquanto psicanalista e editora, escutar os que me procuram, escrever e publicar. Como mãe, devo acordar as minhas filhas e ajudá-las nas tarefas escolares, nos exercícios diários, escutá-las e protegê-las.

Minha filha menor acorda, insiste em vestir o uniforme da escola e, após o café, inicia seus afazeres. Sabem qual sua primeira tarefa? Recitar o poema diário "Eu contemplo o mundo/ Onde o sol reluz...". Isso me acalenta o coração. Ela me ensina, talvez um pouco como Guido, que manteremos a vida, ainda que não tão bela assim.


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