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Estado de Minas EDITORIAL

O Nobel e nós


postado em 20/10/2019 04:00

Falar em economia parece grego para a maioria dos mortais. Fórmulas e vocábulos difíceis constituem barreira só transponível para meia dúzia de privilegiados. O Prêmio Nobel não fica atrás. A Academia de Ciências de Estocolmo concede a láurea a cientistas e intelectuais que desvendam mistérios semelhantes a hieróglifos. Mesmo os agraciados com o troféu de literatura ocupam patamar tão elevado que raramente alcançam a camada popular.

Assim, surpreende a premiação deste ano. O Banco Nacional da Suécia concedeu o Prêmio Nobel de Economia ao indiano Abhijit Banerjee, à franco-americana Esther Duflo e ao estadunidense Michael Kremer. Banerjee e Duflo são professores do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) e Kremer da Universidade de Harvard. Eles desenvolveram estudos sobre a redução da pobreza – tema de uma atualidade chocante.

A propósito, valem as palavras do comitê que oferece o prêmio: "Apesar da melhora nos padrões de vida, mais de 700 milhões de pessoas ainda subsistem com rendas extremamente baixas. A cada ano, cerca de 5 milhões de crianças menores de 5 anos morrem por doenças que poderiam, frequentemente, ser prevenidas ou curadas com tratamentos baratos. Metade dos infantes do mundo abandona a escola com capacidades apenas básicas de leitura e aritmética".

Situado entre as 10 maiores economias do mundo, o Brasil apresenta dados preocupantes. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do IBGE, mostrou que a desigualdade cresce no país e atinge o maior índice desde 2012. A renda dos 30% mais pobres caiu e a dos mais ricos subiu, sobretudo para o grupo do 1% do alto da pirâmide. De 2017 a 2018, o rendimento médio dos privilegiados saltou 8,4%; o dos que labutam no andar de baixo encolheu 3,2%. Trocando em miúdos: aumenta o fosso entre a base e o topo.

O trio ora agraciado aponta nova direção no trato do espinhoso problema. Focado nos lares mais pobres, adota abordagem inovadora no tocante ao enfrentamento eficaz da desigualdade que se acentua em nações pobres e ricas. Longe de olhar para as estatísticas frias, que transformam pessoas em números, os economistas se debruçaram sobre questões concretas que podem responder com experimentos de campo. Em bom português: em vez de ficar só na teoria, eles partem para a prática. Buscam mais do que números. Buscam melhorar a vida das pessoas com políticas fáceis, baratas e mensuráveis.

É o caso de testar a oferta de reforço escolar para estudantes com baixo rendimento, a possibilidade de optar por merenda escolar ou livros didáticos, a recompensa pela adesão às campanhas de vacinação, a concessão de remédio gratuito em comparação com o oferecido por custo quase irrisório. As conclusões contribuem para a melhora, por exemplo, dos resultados da educação e da saúde infantil. Também avaliam a eficácia das políticas públicas – que permite correção de rumos e evita desperdícios, não só de recursos financeiros e humanos, mas também do futuro de gerações.


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