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Home office: solução ou problemão?


postado em 03/10/2019 04:00

Claudio Gandelman
CEO da Auti Books

Imagine a cena: pijamas, cachorro do lado, levar o filho no colégio, almoço caseiro, sem trânsito e ainda com tempo daquela malhação a qualquer hora do dia. E o melhor de tudo, com o trabalho fluindo a milhão, muito mais produtivo do que em qualquer escritório. E, para fechar a discussão, a empresa ainda economiza escritório, telefone, luz, internet e todo o conjunto da obra. Quase o paraíso para todos.

Quando vejo as pesquisas nos EUA e Europa falando que o home office é o que há de mais fantástico no mundo, com produtividade melhor e muito mais qualidade de vida, me dá vontade de comprar espaços em prédios de escritório só para vendê-los em seguida e dizer que estou na tendência do mundo.

E o brasileiro, que tem um dom especial para ser seguidor, começa a implementar isso com toda a força, e com a certeza absoluta de que isso é quase uma Mega-sena.

Mas deixe-me dar uma visão diferente só para refletirmos, até porque acho que não tem certo ou errado nessa questão, tudo ainda é muito novo.

Já trabalhei em empresas americanas e europeias, bem como em empresas brasileiras. Tem duas coisas que chamam a atenção de cara:

1 –  Os americanos, especialmente, tendem a medir tudo melhor que a gente, ou seja, fica muito mais fácil controlar as entregas, os prazos, os acessos e tudo mais que dá para se medir;

2 –  A produtividade é muito maior nesses países. Nos EUA, as pessoas comem nas suas mesas de trabalho, não param para bater papo no cafezinho, não descem a cada hora para o cigarrinho. Aqui, no Brasil, a gente tem uma queda para ser mais sociável, o que é maravilhoso e saudável, mas o fato é que o dia rende menos.

O povo brasileiro, diferentemente dos americanos, tende a "demonizar" o patrão, o capital e, especialmente, o ganho. Então, se der para dar uma de espertinho, coisa que culturalmente é "aceitável", muitos de nós brasileiros faremos o seguinte: essa é a regra e não a exceção. Acredito que essa cultura está mudando, mas muito devagar.

Outra coisa que entendo valer para todos é a troca de informações. Quando se trabalha de casa, tem-se uma dificuldade muito maior de termos uma ideia que seja compartilhada e, principalmente, construída em conjunto. As ideias têm uma tendência muito maior de morrer com uma pessoa do que ser dividida com uma equipe e florescer.

Um outro ponto que acho extremamente importante de se colocar é a parte cultural. Como se constrói uma cultura por e-mail, WhatsApp, Slack e afins? Será que isso é possível?

Uma amiga minha é diretora de uma multinacional que introduziu o home office. Na empresa dela pode ser alguns dias por mês, escolhidos pelos funcionários. É uma empresa britânica e o conceito já foi inserido na matriz com algum sucesso.

O problema é que no Brasil o dia escolhido por praticamente todos os funcionários é, por uma incrível coincidência dessas que a vida insiste em criar, a sexta-feira. Na rádio corredor, muitos já chamam jocosamente de home "day" office. É complicado quando o conceito vira piada.

Minha opinião formada ainda não existe. Tendo a achar que é ótimo para algumas pessoas e outras não conseguirão fazer isso de forma alguma. Pouquíssimos têm maturidade para admitir.

A propósito, eu sou péssimo de home office, produzo muito mais no escritório do que em casa, num café ou qualquer coisa que o valha. E adoro colocar as ideias para debater com a turma e pedir pitaco, preciso das pessoas para isso.


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