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Estado de Minas

Como não ficar desanimado?


postado em 26/08/2019 04:00

Fábio P. Doyle
Da Academia Mineira de Letras Jornalista

 

Não posso ficar desanimado. Mas como não ficar em um país tão desanimador como o nosso, nos dias de hoje?

Abra o jornal, se é que você ainda lê alguma coisa, ou se fica nas notas cifradas e mal-amparadas das redes sociais das internets da vida. E só notícia ruim, negativa, mostrando a fragilidade e a incapacidade dos governantes, todos eles, de corrigirem o que está errado, de anular o que de absurdo e indevido outros poderes praticam e autorizam.

 

Projeto de lei, aprovado pela Câmara dos Deputados, teria como finalidade punir abusos de autoridades, mas o objetivo verdadeiro é impedir investigação e punição dos corruptos e corruptores poderosos, jogar no lixo a Lava-Jato e invalidar todo o trabalho de seu principal artífice, o juiz, hoje ministro, Sérgio Moro. Projeto elaborado com habilidade criminosa para sobreviver a possíveis vetos parciais. Nele colocaram excrescências jurídicas evidentes, que clamam pelo veto presidencial. Com o veto parcial de dispositivos, postos ali para isso mesmo, restaria o arcabouço do monstrengo jurídico, com a conformação e a finalidade desejadas pelos seus autores. Melhor seria o veto total. Mas Bolsonaro terá coragem de confrontar as bancadas de que dependem as reformas que quer fazer?

Sérgio Moro é combatido pelos que o temem, pelos que procuram desmoralizar e invalidar o belo trabalho que comandou, quando juiz federal em Curitiba, investigando e punindo corruptos e corruptores, entre eles um ex-presidente da República. Não o perdoam pela moralização que tenta implantar no país. Querem afastá-lo do Mi- nistério da Justiça, que abrange a Polícia Federal. O jurista, o magistrado, o homem reto e de bem vivia mais tranquilo em Curitiba, dedicado à sua missão no Judiciário. Apesar do apoio que lhe é dado pelo presidente da República, que o buscou no Paraná para consolidar seu governo, uma certa insegurança é percebida em sua fisionomia, sempre, e agora mais ainda, séria, fechada. Que Deus e o destino o protejam.

 

Plaquinha não resolve

 

De desanimar, também, a falta de fiscalização e de punição dos que deveriam exigir obediência e respeito às normas que regem a ordem e a segurança pública. Omissão e desrespeito que resultam em tragédias urbanas. Como a que aconteceu na Rua Aníbal de Mattos, Santo Antônio, resultando na morte de uma psicóloga de 59 anos, Ivanilda José Basílio Felisberto. Aquela rua tem um quarteirão que nunca deveria ter sido liberado para o tráfego, mas foi. Uma ladeira perigosa, extremamente íngreme, como outras da mesma região montanhosa. Caminhões e carretas estão proibidos de passar por ela. Mas passam. Os moradores confirmam. Um deles declarou que um desastre ali "era uma questão de tempo". Um caminhão, ao tentar carregar uma caçamba de oito toneladas, teve a frente levantada pelo peso na parte traseira. Sem poder usar os freios, o veículo desceu a rua em velocidade, atingiu um Palio, cujo motorista saltou antes do choque, e um Honda HRV, em que estava a psicóloga. Arrastou-os ladeira abaixo até bater em uma árvore, esmagando o Honda de Ivanilda, que morreu no local.

 

 

O motorista irresponsável, que não se feriu, foi levado ao Detran e preso pelo delegado. Crime: transitar em local proibido e homicídio culposo. Será punido, ficará preso quantos dias? Como acontece sempre, a sentença final lhe será favorável, com o juiz optando por considerar o que aconteceu "uma fatalidade". A moça, morta e enterrada pelo filho e parentes em prantos, dirá a sentença, estava ali, naquele carro, naquela rua, naquele momento, por força do destino. Ponto final.     

                                               

 Não basta colocar plaquinha com a frase "Proibido para caminhões". É preciso fiscalizar e punir os que ignoram a proibição, e são muitos, basta ver quantas caçambas estão naquela ladeira. Desanimado, pergunto: ssso será feito algum dia?.

 

Vicente Sanches

 

Ele era um exemplo de pureza, de modéstia, de bondade, de dedicação ao trabalho e aos amigos. Vicente Mascarenhas  Sanches, jornalista, bacharel, delegado de polícia aposentado, chegou ao Estado de Minas menino ainda. Filho de ferroviário, foi admitido na redação, na Rua Goiás, no final dos anos 50, como office boy. Logo se destacou pelo entusiasmo com que cumpria as tarefas que lhe eram dadas. Entusiasmo e bom humor. Conquistou a admiração dos colegas e chefias. Ao concluir o curso colegial, foi transferido para o Diário da Tarde como repórter. Ali fez carreira. Começou na área de polícia, até criar duas colunas que o consagraram e o tornaram famoso – Correio sentimental e a Doações e trocas. Ele percebeu que muitos leitores telefonavam querendo iniciar relacionamentos sentimentais; outros, doar ou trocar objetos que já não lhes eram úteis, roupas, armários, malas, brinquedos. Daí surgiram as duas colunas, que cresceram até ocupar meia página semanal, ilustradas por Son Salvador, admitido no DT por indicação sua, que o conhecia e admirava seu talento. Durante muito tempo manteve uma coluna sobre funcionalismo público, a Mongeral.

 

Incentivado pelos  colegas, resolveu fazer um curso superior, o de direito. Aprovado no vestibular, logo depois entrou para a Polícia Civil, como investigador. Diplomado, foi promovido a delegado de polícia. Deixou o jornal e dedicou-se, inteiramente, como era do seu feitio, à nova carreira, até se aposentar. Casado com Lívia, advogada – fui com Rachel um dos padrinhos –, teve três filhos, Vanessa, Alessandra e Vicente Júnior, todos com cursos superiores. Construiu sua casa no Buritis, e, aposentado, um sítio e refúgio para a velhice em Nova Lima, com uma capela, católico praticante que sempre foi.

 

Esse o resumo da história simples de um homem bom, de uma alma pura. Que precisa ser lembrada, como exemplo, pelos que com ele conviveram na imprensa, sua paixão maior. É o que estou, solitariamente, tentando fazer aqui do meu canto. 


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