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Estado de Minas

Reescrevendo a vida


postado em 04/08/2019 04:06



Estamos vivendo a fase mais lenta da aceleração. Nos próximos anos, o impacto tecnológico fulminará as semânticas binárias, aumentando, vertiginosamente, a velocidade do raciocínio humano entre variáveis móveis, multidisciplinares e intercambiantes. Assim como a revolução industrial transformou o mundo agrário, a tecnologia nos fará acessar pioneiras dimensões do intangível, forçando uma necessária reinterpretação dos fatos da vida e o correlato surgir de ressignificações com novos prismas de compreensão.

Sim, a inteligência artificial impactará, sem pedir licença, as formas e capacidades do trabalho humano. No entanto, a discussão fundamental não é sobre desemprego, mas sobre as habilidades imanentes que precisamos desenvolver. Se toda atividade padronizável será substituída pela robotização inteligente – capaz de trabalhar 24 horas por dia, sete dias da semana, sem adicional noturno ou periculosidade –, resta aberto todo um amplo campo de ofícios que fazem do human touch o seu grande diferencial.

Objetivamente, estamos em um ponto crucial da mudança: as nações que tomarem o rumo errado estarão condenadas a décadas de pobreza social. Para progredir, precisamos falar, seriamente, sobre educação, e não apenas para nossas crianças, pois também é imperativo retreinarmos a população adulta economicamente ativa, equipando-a com as lógicas laborais da tecnologia. Segundo a inteligência inquieta de Thomas Frey, a partir de 2030, o ser humano terá que refundar suas bases funcionais de oito a 10 vezes ao longo de sua vida profissional, colocando em xeque, portanto, muitos dos longos ciclos universitários de quatro a cinco anos.

Objetivamente, estamos nos movendo de um teaching model para um dinâmico processo de learning model. Trata-se de um degrau a mais em nossa caminhada evolutiva, que impõe métricas de raciocínio progressivamente mais complexas e, ao mesmo tempo, mais livres, intuitivas e fugidias. Nesse ambiente de ubíqua fluidez do conhecimento, quanto mais avançarmos nas possibilidades de interconexão cultural, maior será nossa margem potencial de liberdade, embora tenhamos palpáveis riscos de uma extraordinária massificação segmentada com um efeito colonizador de dominação de consciências.

O mais incrível é que os palcos de atuação da vida estarão em esferas sobrepostas do real com o virtual. Se a inteligência artificial (AI) é um dos termos da moda, as big players já estão investindo pesadamente em augmented reality (AR), imbricando meticulosamente o poder criador da imaginação com a concretude existencial. Em outras palavras, as plurais dimensões do viver vão se entrecruzar, refundando as bases de como enxergamos a vida e as infinitas possibilidades do ser.

Por tudo, a tecnologia é um grande projeto de reconstrução humana. Se melhor ou se pior, é uma página em branco à espera de um enredo vencedor. Na verdade, estamos reescrevendo um novo livro da vida, reinaugurando as infinitas possibilidades daquilo que nos faz humanos. Dos amores às tristezas, das crenças à objetividade, das loucuras à consciência, das opressões reais ou imaginadas à plenitude das liberdades, teremos, à frente, uma ampla gama de significados e significações que simplesmente desconhecemos. E só aqueles com coragem para viver terão condições de entender para contar.


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