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Estado de Minas

Órfãos do bom senso

Imagine a frustração de um menor que não foi escolhido para ser adotado. Não passar no teste de qualidade deve doer demais


postado em 24/05/2019 04:06

Crianças e adolescentes que sonham ter uma família desfilaram diante de cerca de 200 pessoas. Eles não estavam ali para mostrar roupa e calçado ou se lançar no mundo da moda e do entretenimento, mas para se apresentar como candidatos a filhos.

A ação foi organizada pela Associação Mato-Grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara), em parceria com a Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Mato Grosso (OAB-MT), com apoio do governo do estado e do Tribunal de Justiça do Mato Grosso (TJMT). A chamada “Passarela da Adoção” foi realizada terça-feira em um shopping em Cuiabá. Pela segunda vez.

Em comunicado, os responsáveis deixaram claro que o objetivo era “dar visibilidade a crianças e adolescentes aptos para adoção”. E ainda justificaram que “o que os olhos veem o coração sente”. Mais, em detalhes, na fala de Tatiane de Barros Ramalho, presidente da CIJ: “Será uma noite para os pretendentes, pessoas que estão aptas a adotar, poderem conhecer as crianças. A população em geral poderá ter mais informações sobre adoção e as crianças em si terão um dia diferenciado em que elas irão se produzir, cabelo, roupa e maquiagem para o desfile”.

Transformaram menores em mercadorias. Nada mais indicado que ocorresse em um templo de consumo. As redes sociais não perdoaram. Feira de animais e leilão de gado foram algumas alusões feitas em comentários críticos ao evento. A época da escravidão também foi lembrada, quando homens e mulheres negros colocados à venda eram expostos aos olhos dos senhores, que os escolhiam pela brancura dos dentes e pelo porte e o vigor que demonstravam para executar trabalhos braçais.

Grupos de defesa dos direitos humanos reagiram de forma dura contra a péssima ideia. E com razão. Um evento desse não se realiza da noite para o dia. Demanda planejamento, reuniões, contratação de profissionais, ensaio. Leva tempo. Difícil admitir que não tenha havido alguém ou autoridade maior que alertasse para a falta de bom senso. Ainda mais se tratando de algo que já havia sido feito uma vez.

A Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, subordinada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, divulgou nota manifestando pesar com o desfile e lembrou que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) “atribui à sociedade e ao Estado o dever de proteger integralmente crianças e adolescentes, o que inclui a proteção à exposição de sua identidade e suas emoções”. Imagine o sentimento de frustração de um menor que se arrumou, se produziu e sorriu com a intenção de ser escolhido por alguém da plateia e isso não se concretizou. Não passar no teste de qualidade deve doer demais.

São 6 mil menores brasileiros na fila por um lar. Do outro lado, há seis vezes mais pessoas interessadas na adoção, mas a maioria não encontra o perfil que deseja, o que prolonga a espera (dos dois lados). Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que 92,7% dos pretendentes à adoção, no país, querem crianças entre zero e 3 anos. Mas apenas 8,8% dos menores têm essa idade.

Com o interesse de conscientizar a população para a adoção tardia, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e os Grupos de Apoio à Adoção de Belo Horizonte (GAA/BH) e de Santa Luiza (Gada) abriram a Semana Nacional da Adoção, no domingo, com uma caminhada na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, que reuniu famílias com crianças adotadas. Faixas e cartazes chamaram a atenção para o grave problema, que pode ter um final feliz, sem necessidade de expor seres humanos como artigos à venda.


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