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As semanas mineiras de folclore


postado em 13/04/2019 05:04

 

 




As semanas mineiras de folclore foram oficializadas no ano de 1965 pelo então governador José de Magalhães Pinto, numa iniciativa da Secretaria do Trabalho e da Cultura Popular. Este nome merece ser fixado: Trabalho e Cultura Popular. Com efeito, não há como compreender a cultura popular sem atenção para o trabalho e o trabalhador. Desse modo, a primeira Semana Mineira de Folclore, em pleno ano de 1965, no mês de agosto, iniciou-se com uma solene celebração na Praça da Liberdade, onde se ergueu um palanque e se celebrou missa presidida pelo arcebispo de Belo Horizonte, com a presença de 2 mil congadeiros. A essa solenidade compareceram o governador do estado, os secretários de governo, o prefeito de Belo Horizonte e inúmeras autoridades.

Foi esse o instante em que se fixou para os estudiosos do folclore o compromisso da Comissão Mineira de Folclore com o saber do trabalhador e o saber fazer a festa. Com efeito, as Minas Gerais guardam, ou devem guardar na memória, que toda a riqueza que ensejou mudanças radicais, a partir da expansão da Europa para as periferias do mundo, foi obtida pelo trabalho intenso dos pés rapados – os degredados – e dos escravos.

Pergunta-se: o que há de celebrar em contexto de puro sofrimento. Eis o mistério que incomodava os senhores: a senzala como centro de celebração. Nos intervalos do trabalho e das punições, os tambores ecoavam noite adentro. Curiosidade maior ainda: os festejos não dispensavam o saber celebrar dos submetidos ao sofrimento. Isso é relatado nas magnificentíssimas festas, no triunfo eucarístico, no áureo trono episcopal. Da senzala à centralidade urbana.

Há que se perguntar mais uma vez: por que o trabalho é festejado no "pau de fitas", no "pau de sebo", nas circunvoluções do catopê, dos marujos e dos congos? Encena-se o trabalho no tear doméstico, no eito da capina de milho, ou na colheita da cana, na lida de mineração. É essa atenção ao transcender o trabalho que se celebra, anualmente, nas semanas mineiras de folclore. Há que fixar que, enquanto houver sofrimento no trabalho, deve-se insistir no desafio de celebrar com festas o saber do trabalhador. Contudo, isso é apenas um ponto de partida para compreender o saber viver em Minas Gerais e suas condições.

Pode-se dizer que a medida se folclorizou, hoje em dia. Trabalho é medido de acordo com a respectiva produtividade. Há índices para tudo. A nota não é vista como veredito de uma sentença, mas especialmente como uma realidade colada à condição de ser. Pois bem, o que fazer com os saberes que são desprezados na concepção das medidas? A aspiração pela maior nota tornou-se o maior valor comandado pela nivelação dos iguais. Bela contradição! Ao avaliar segundo a igualdade, explicita-se a desigualdade. Quem não for o primeiro na escala levará a marca da exclusão. O estudioso do folclore há de se confrontar com esses desafios da assim chamada pós-modernidade e as semanas mineiras de folclore irão explicitar essas contradições.

O valor da igualdade traz embutida a divisão do trabalho e, juntamente com ela, e por isso, a primeira grande separação: trabalho e isenção do trabalho. Simplificadamente: trabalho e lazer. Curiosamente, comparecem os que trabalham para ensejar lazer. Surge, portanto, o desafio da promoção da festa. Festa do trabalho e festa com trabalho. Serão esses desafios com os quais a Comissão Mineira de Folclore terá de confrontar ao longo de 50 anos e que, possivelmente, ainda pautarão nossos estudos e mesas de conversa por algumas centenas de anos. É possível vislumbrar no horizonte a possibilidade de uma sociedade sem trabalho?

Em meio a essa aventura, enfatizamos a referência às pontas do mesmo eixo: o sistema da subsistência e do mercado, de um lado, e o sistema da dádiva e da festa, do outro lado. Para qual desses lados pende a balança em nosso percurso histórico? Boa pergunta.


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