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Estado de Minas

Crédito inacessível

Num momento tão crítico da economia, com o país precisando crescer para criar empregos, um setor não pode olhar unicamente para seus interesses


postado em 02/04/2019 05:06

O Banco Central deu uma péssima notícia para o país. Em um momento em que todos os analistas estão reduzindo as projeções de crescimento para a economia neste ano – o consenso é de que o Produto Interno Bruto (PIB) avançará menos que 2% –, os bancos, sem qualquer justificativa lógica, aumentaram os juros cobrados dos consumidores. A taxa média saltou para 53,2% ao ano, o nível mais elevado desde maio de 2018. O argumento sempre usado pelas instituições financeiras para justificar o avanço sobre o bolso da clientela é a inadimplência. Mas, pelos cálculos do BC, o índice de calote está em queda há meses, situando-se em 4,7%, patamar mais baixo em pelo menos três anos.
 
Praticamente todas as operações de crédito voltadas às pessoas físicas ficaram mais caras. No cartão de crédito, apenas no mês de fevereiro, os encargos subiram 8,6 pontos percentuais. É mais do que a taxa básica de juros (Selic) fixada pelo BC, de 6,5% ao ano. Na média, quem cair na armadilha de financiar dívidas por meio do dinheiro de plástico pagará juros de 295,5% anuais, taxa sem precedentes no mundo nessa modalidade de financiamento. No cheque especial, o salto foi de 2,3 pontos percentuais, para 317,9% ao ano. Qual a razão lógica para se impôr um custo tão pesado aos consumidores? Por que os bancos se recusam a dar sua cota de sacrifício para a retomada do crescimento econômico?
 
Olhando para os relatórios preparados pelo BC, fica fácil responder a tais indagações. As instituições financeiras estão preocupadas somente em ampliar seus lucros. Tanto que o spread, a diferença entre o que os bancos pagam aos investidores e o que cobram de seus clientes, subiu em fevereiro para 45,4 pontos, retornando aos níveis de maio do ano passado. Juntas, as cinco maiores instituições do país ganharam, depois do pagamento de todos os impostos, R$ 81 bilhões em 2018. Nada contra os lucros. Muito pelo contrário. O que não pode é, num momento tão crítico da economia, com o país precisando crescer para criar empregos – são 13,1 milhões de trabalhadores em busca de uma vaga –, um setor olhar unicamente para seus interesses.
 
O crédito é uma alavanca fundamental para a retomada do desenvolvimento. Se as taxas de juros estão mais acessíveis, as famílias, que respondem por mais de 60% do PIB do lado da demanda, se sentem motivadas a comprar a prazo ou a tomarem um financiamento. Ao consumirem mais, movimentam a indústria e o comércio. Esse é o ciclo virtuoso pelo qual o país anseia. Com os encargos atuais, os bancos afastam os consumidores do crédito e boa parte daqueles que se endividam acaba não tendo como pagar os débitos. É um jogo no qual só sistema bancário ganha.
 
Ciente desse quadro desanimador, o governo diz que vai trabalhar para tornar o crédito mais acessível. Técnicos atribuem os juros abusivos à falta de concorrência no sistema, uma vez que cinco bancos detêm mais de 80% do mercado. Resta saber se esse movimento é para valer ou se ficará no discurso, como se viu nas administrações anteriores. Uma coisa é certa, o Brasil não aguenta mais conviver com crédito tão caro.


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