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Cidades à deriva


postado em 11/03/2019 05:05


As pautas não estão dentro das redações. Elas gritam em cada esquina. É só pôr o pé na rua e a reportagem salta na nossa frente. Essa percepção, infelizmente, é a que mais falta aos jornais. Os diários perderam o cheiro do asfalto, o fascínio da vida, o drama do cotidiano.

O valor do jornalismo depende de uma providência muito simples: sair às ruas, fazer reportagem. Só isso.

 Você, amigo leitor, tem ido ao Centro antigo de São Paulo? Faça o teste. É um convite à depressão. É uma cidade assustadora: edifícios pichados, prédios invadidos, gente sofrida e abandonada, prostituição a céu aberto, zumbis afundados no crack, uma cidade sem alma e desfigurada pelas cicatrizes da ausência criminosa do poder público. A cidade de São Paulo foi demitida por seus governantes. E nós, jornalistas, precisamos mostrar a realidade. Não podemos ficar reféns das assessorias de marketing e das maquiagens que falam de uma revitalização que só existe no papel. Temos o dever de pôr o dedo na chaga. Fazer reportagem. Escancarar as contradições entre o discurso vazio e a realidade cruel. Basta percorrer três quarteirões. As pautas estão quicando na nossa frente.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, não está seguindo as pegadas de seu saudoso avô. O governador Mário Covas, temperamental e briguento, era um apaixonado por São Paulo. Deixou uma forte marca e uma bela herança. Bruno, não. Parece ausente da administração. A zeladoria é uma piada. A cidade está suja, esburacada, maltratada. De repente, o prefeito desencantou. Acordou com uma ideia delirante: transformar o Minhocão em parque suspenso. O corredor, importantíssimo, liga a Zona Oeste à Zona Leste de São Paulo. O caos previsível não tem problema. O importante é ter uma vitrine marqueteira. O prefeito está aquecendo as turbinas para a próxima eleição. Só isso. Alguém dúvida de que a intervenção urbana tem razões eleitorais bem calculadas?

Os jornais precisam fazer o contraponto. Jornalismo é isso: mostrar a vida, com suas luzes e suas sombras. São Paulo, a cidade mais rica do país e um dos maiores orçamentos públicos, é um retrato de corpo inteiro da falência do Estado.

Também o Brasil está na banguela. O novo governo federal está apalpando o tamanho do estrago, o peso da herança deixada por anos de incompetência e corrupção. Merece o tradicional voto de confiança. Bolsonaro passou pela primeiro teste de opinião pública. A pesquisa CNT/MDA mostrou que ele está firme e forte. Seu desempenho no cargo foi aprovado por 57,5%, percentagem um pouco superior à dos votos que teve no segundo turno (55%). Mas a imprensa não deve ter filtros seletivos. Precisa acompanhar e cobrar resultados.

O custo humano e social da incompetência e da corrupção brasileira é assustador. O dinheiro que desaparece no ralo da delinquência é uma tremenda injustiça, uma bofetada na cidadania, um câncer que, aos poucos e insidiosamente, vai minando a República. As instituições perdem credibilidade numa velocidade assustadora.

Há uma clara percepção de que o Estado está na contramão da sociedade. O cidadão paga impostos extorsivos e o retorno dos governos é quase zero. Tudo o que depende do Estado funciona mal. Educação, saúde, segurança, transporte são incompatíveis com o tamanho e a importância do Brasil.

Nós, jornalistas, temos um papel importante. Devemos dar a notícia com toda a clareza. Precisamos fugir do jornalismo declaratório. Nossa missão é confrontar a declaração do governante com a realidade dos fatos.
As cicatrizes que desfiguram o rosto de São Paulo e do Brasil podem ser superadas. Dinheiro existe, e muito. Falta vergonha na cara, competência e um mínimo de espírito público.

Jornalismo é a busca do essencial, sem adereços, qualificativos ou adornos. O jornalismo transformador é substantivo. Sua força não está na militância ideológica ou partidária, mas no vigor persuasivo da verdade factual e na integridade da sua opinião. Façamos reportagem. Informação é arma da cidadania.


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