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Um mau começo. O jeito é rezar


postado em 04/03/2019 05:08

Definitivamente, não era isso que esperávamos de um novo ano que nasceu  à meia-noite do 31 de dezembro, trazendo tanta esperança de melhores dias. Afinal, achávamos, com razão, que o ano que desaparecia, com a retirada da última folhinha do calendário, não havia sido venturoso para o Brasil e para o seu povo. E que o novo seria bem melhor, com novos governantes, novos programas, novos rumos para um país conturbado, assaltado, quase falido pela ação de corruptos raramente investigados, muito raramente punidos por um Judiciário omisso, claudicante, acovardado. Não exagero. Todos, os lúcidos, sabem que foi assim mesmo.

Comemoramos, com o que ainda nos restava de entusiasmo e otimismo, a mudança. Pensávamos: ufa, escapamos! Agora, vamos  viver novos e melhores tempos. Ledo (e Ivo, lembram-se?) engano. A comemoração, o entusiasmo, a esperança, o otimismo duraram apenas alguns dias. Logo foi possível perceber que não seria como esperávamos. Passados dois meses, temos a triste certeza de que tudo piorou, ou continuou na mesma, ou quase, se o quase se justifica ou se não passa de uma licença poética usual na linguagem jornalística, destinada a não fechar, a não bater, mas apenas encostar a porta das afirmações mais contundentes.

Os governos que tomaram posse no raiar do 2019 pouco fizeram que correspondesse ao que deles se esperava e se anunciava. Nem na área federal, muito menos na estadual, esta muito devagar e ausente. Na federal, a culpa menor é a do novo comandante do barco, que estava à deriva por culpa de maus pilotos. O novo capitão, capitão mesmo, por carreira e titulação, assumiu e não assumiu. Vítima de tentativa de assassinato durante a campanha, submetido a diversas cirurgias, hospitalizado por longos períodos, com movimentos limitados por bolsas, curativos, exames e infecções pulmonares, dele não se poderia esperar mais do que fez nesse período, e o pouco que fez surpreendeu, em face do seu estado de saúde.

Depois de receber  alta, mas alta com limites médicos, ele tenta reorganizar seu governo, afastando os que não se enquadram no perfil que exige de seus colaboradores, ministros etc.. Sua primeira preocupação, e não poderia ser outra, era concluir a elaboração das duas reformas por ele pautadas, a da Previdência e a chamada anticrime, preparadas pelos ministros da Economia, Paulo Guedes, e  da Justiça, Sérgio Moro. Foram concluídas, aprovadas por  seus companheiros de governança, e a da Previdência, a mais urgente, levada por ele, pessoalmente, ao Congresso.

E ficou nisso. Foram entregues ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, reconduzido ao posto com apoio do governo, com pedido de  tramitação rápida, como o Brasil e a crise orçamentária exigem. Maia deveria ter nomeado, no mesmo dia, a Comissão de Constituição e Justiça que  deve analisar o texto e autorizar o  encaminhamento à Comissão Especial, a ser nomeada também por ele, para, finalmente, ser votada em plenário.  Repetindo o que fez com o projeto de Michel Temer, e usando e abusando dos poderes aburdos que tem, ele não nomeou nem encaminhou, engavetando o projeto de Bolsonaro. Talvez,  mais uma vez, pensando em ganhar votos dos descontentes para seu sonho presidencial. Deu declarações enviezadas, dizendo-se a favor da reforma, mas sem dar andamento ao projeto.

Na semana passada, foi além. Fez críticas ao texto e disse que só encaminhará a proposta para a comissão, "depois do carnaval". Deve-se rir ou chorar? A proposta anterior, a de Temer, foi  aprovada nas comissões, mas ficou paralisada, por razões sabidas e planejadas pela oposição. Na época, em artigo, escrevi que a melhor forma de reformamos, rápido, a Previdência, seria reapresentando, e aprovando, o primeiro projeto, já com  meio caminho burocrático andado. Mais tarde, poderiam ser feitas, na nova lei, as correções julgadas necessárias. A sugestão, que não era só minha, não vingou. Vamos esperar para ver o que vai acontecer. Sem perder a esperança.

O ano começa, não apenas na área governamental e política, de forma preocupante. As tragédias se repetem. O rompimento da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho destruiu uma comunidade inteira, matou 200 pessoas, com 100 outras ainda desaparecidas no lamaçal, certamente mortas também. Afetou o meio ambiente e continua a  afetar, mais de um mês passado, levando poluição mortal pelas águas dos rios, já se aproximando de Três Marias, o que seria o caos absoluto. Chuvas torrenciais alagam e matam no Rio, em Minas, em São Paulo, e por aí. Incêndio em precário dormitório improvisado pelo tão rico Flamengo, do Rio, mata meninos pobres recrutados para se tornarem craques do futebol. Na área internacional, confusão e morte na fronteira com a Venezuela.

E mortes, muitas, desde o primeiro dia de janeiro. Mortes violentas, criminosas, e mortes trágicas, como a do jornalista famoso Ricardo Boechat e do piloto Ronaldo Quattrucci, na queda do helicóptero em que viajavam. E dolorosas, como a de Bibi Ferreira, do rei dos figurinistas Karl Lagerdoff, do economista e ex-ministro do Planejamento, João Paulo Reis Veloso, de Tavito, o compositor de Rua Ramalhete,  de Roberto Avallone, do padre Quevedo, e de Bernardo, o Bê,  meu amigo mais amigo. Quanta dor, quantas lágrimas, quanto sofrimento em apenas dois meses de um novo ano que já nasceu sofrido e envelhecido.

Bom, janeiro e fevereiro já se foram, março está começando. Que os 10 meses que faltam sejam mais amenos, mais felizes. Que  Bolsonaro consiga aprovar suas reformas e cumprir o que prometeu na campanha para consertar o nosso país. Que os novos governadores comecem a governar. Que menos tragédias, menos rompimentos de barragens, menos alagamentos, menos acidentes áereos e rodoviários, menos incêndios e menos mortes, tristes sempre, aconteçam. Rezar é o que nos resta.  E orar pelo descanso eterno dos que partiram.

 


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