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Estado de Minas

Brumadinho: antes e depois do apocalipse


postado em 09/02/2019 05:04

 








Muito já se escreveu sobre Brumadinho. Alentado volume não comportaria tudo que já se divulgou sobre a tragédia. Lágrimas, dor, luto, desespero, pálida face do que aconteceu. O dantesco sofrimento daquela gente não cabe no registro do mais inspirado cronista. Impactante, página de capa deste jornal em breve será pequena para estampar a fisionomia dos que morreram ou desapareceram debaixo da pesada camada de resíduos da barragem.

Ainda assim, é preciso falar, escrever, protestar, gritar a plenos pulmões. Pena de omissão, todos nós temos o grave dever de alguma coisa fazer. As gerações futuras precisam saber que um dia o apocalipse – dragão de Daniel ou besta exalando pelas narinas enxofre e ferro – engoliu a cidade, seus filhos e seus sonhos. Com famélica crueldade, o monstro passou por cima do que encontrou, a tudo destruindo e soterrando.

Uma semana depois, ainda estarrecidos, divisamos o pós-apocalipse. Imagens aéreas de sacos com pedaços de corpos, encontrados por abnegados bombeiros, cobertos de lama. Em seguida, na mesma tela, atrevida e insensível, anúncios de produtos, focados em lucros e promissores resultados financeiros! O dinheiro, o lucro, a beleza da pele acima da lama, da morte e da legião de desaparecidos.

Revoltante o contraste, brutal o choque de valores. Dir-se-á que as emissoras de televisão vivem dos anúncios, que as alimentam e mantêm. Dir-se-á, mais, que se um canal recusar o anunciante, outro o abençoará, levando o segundo a expulsar o primeiro, com prejuízo para a qualidade da informação. Certo, mas não inteiramente.

Serviço concedido, os canais de televisão têm obrigações contratuais, e outras, implícitas, de formação e educação. Dever deles, por exemplo, recusar anúncios indecorosos e orientar seus anunciantes no sentido de também contribuírem para a construção de imagens positivas e úteis ao bem-estar da comunidade.

No caso de Brumadinho, o mínimo que se poderia esperar dos anunciantes seria trocarem os espaços de suas "milagrosas" promessas por comunicado coletivo, revelador de sua solidariedade, embora tardia. As emissoras deveriam sugeri-lo aos seus anunciantes. É dever delas. Um minuto deles bastaria para revelar sua solidariedade àqueles que, tragados, engolidos, massacrados pelo apocalipse, já não têm voz.

Calada, mas inconformada, Minas se sente violentada até a medula.

No meio do furacão, emissoras e seus anunciantes conhecem a dor, densa e inquiridora, que nos asfixia. Conhecem, também, o sentimento do mineiro, capaz de separar o joio do trigo. Capaz, até, de suspeitar da cronologia das imagens e de sua sequência na tela, que invade lares de milhões de famílias. Capaz, finalmente, de notar que a ordem de precedência dos anúncios, alguns logo após imagens chocantes, àqueles valorize, em termos de audiência. A imediatidade da imagem do lucro aproveita-se da dramaticidade da dor, anteriormente revelada. Tapa na cara de Minas, que vê, escuta e não esquece. Quem a conhece sabe que seu silêncio não é de concordância, senão de enérgico protesto.


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