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Estado de Minas

Soterrados na lama

Há muito, Minas estacionou. A concentrada matriz econômica do século passado atrofiou-se


postado em 04/02/2019 05:09

O pesadelo de lama e morte voltou a assombrar os mineiros, chocando o mundo. Com descomunal contundência, fomos todos feridos, física e no fundo de nossos corações, com a tragédia do rompimento da segunda barragem de rejeito de minério da empresa Vale.

Um dardo de ferro trespassou nossas entranhas, uma fuligem áspera de minério turvou as nossas mentes. A população de todo o estado, solidária com o rastro de dor dilacerante que desespera centenas de famílias, sente o quão insuportável é lidar com a perda de tantos entes queridos. Com os olhos marejados e nó na garganta indaga: por que isto aconteceu de novo?.

Feridas no coração não se curam. Algum dia cicatrizam, porque é da condição de vida dos humanos, mas não há reparo material, explicações nem pedidos de desculpas a confortar tamanha dor.

Por décadas, essa exangue Minas de hoje deu à Vale muito mais que recebeu em investimento e empregos. Mansamente, foi sendo colocada no último vagão da história da companhia com as suas barragens (in)seguras, a mineração se exaurindo, ultrapassada, os trilhos, exclusivos para o minério e insumos, sob o olhar complacente de quem poderia reconfigurar um outro papel à empresa consentâneo com as mudanças da lógica econômica regional. O complexo Carajás/Porto de Itaqui, por exemplo, com investimentos crescentes e atualizados em mina e ferrovia, significa, hoje, mais do que o dobro da capacidade de produção de todos os ativos da companhia em operação no estado.

Há, por certo, uma lógica empresarial que assim induz o negócio da mineradora, mas, ano passado, causou estupor por essas montanhas a iniciativa do governo federal em levar adiante a antecipação da renovação da concessão da ferrovia Vitória-Minas e o valor equivalente da outorga vir a bancar investimentos fora do Estado, como o ferroanel de São Paulo, e não aqueles cruciais ao nosso território, como a construção do anel ferroviário de BH, a transposição da Serra do Tigre. Tais investimentos viriam a dar ao território mineiro, em especial ao Triângulo, um corredor de classe mundial para se abrirem novas fronteiras de progresso e se poder competir nacionalmente no transporte de grãos, fertilizantes e combustíveis, entre outras cargas.

Coisas do grande capital e de interesses de outros estados mais lépidos que transitam por Brasília ao largo de interesses vitais do nosso território em consolidar-se como a principal rótula logística do país. Ouviu-se apenas o berro de poucos com tamanha afronta

Minas entregou, generosamente, o seu ventre ao engrandecimento da Vale e, num desfecho macabro, o que vai-se colhendo é o ceifamento da vida de centenas de seus filhos. Nada é fortuito, ainda que assim queiram que pareça.

A verdade crua é que não existe desenvolvimento que se sustente onde não há condições seguras no empreender, a água é envenenada, a flora e a fauna, dizimadas, e a esperança, solapada. A vida e o respeito a ela não são de gerar dividendos, pedem sim mais vida e sonhos e é o que deve ser tratado como mais relevante.

O replay macabro da tragédia de Fundão faz permear um caldo de indignação e raiva mesclado com um sentimento de impotência, de envergonhamento coletivo, por estarmos sendo vistos como o estado do atraso e da lama.

No meio de tudo, a tornar ainda mais complexa a equação, somos, ao mesmo tempo, cúmplices e vítimas do mal da montanha. Por aqui o pensar é acanhado e letárgico no como acelerar o desenvolvimento em um mundo exposto às colossais transformações onde o uso intensivo da tecnologia e dos serviços avançados modulam a agenda propulsora de novas oportunidades.

Há muito, Minas estacionou. A concentrada matriz econômica do século passado atrofiou-se. Há muito era para se ter avançado rumo à nova economia, em direção a setores da economia criativa, onde a Vale, corretamente acionada, poderia ser parceira. A plataforma de infraestrutura do estado, antiquada, com vários elos faltantes, encontra-se à mercê de novos investimentos e não oferece vantagem competitiva à atração de novos investimentos, tão evidente em estados vizinhos. Nos conformamos com o olhar apenas no retrovisor da história, mesmo com sequelas tão visíveis no animus de agentes econômicos em não mais focar seus interesses no estado.

O dado é que estamos em momento de nervos expostos e, mesmo assim, diante de um ponto de mutação vital na história de Minas. Ou se diversifica a sua economia ou os mineiros perenizarão soterrados na lama do minério e reféns de falsas expectativas. Não há mais espaço à perplexidade. A reflexão sobre essa realidade é inadiável, sem temer a construção de um futuro mais planejado, mesmo que se parta do fundo da vala.

Antes que seja tarde demais.


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