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Estado de Minas

Revolução digital do voto

Os tradicionais palanques políticos foram substituídos pelas ferramentas de marketing digital


postado em 07/11/2018 05:05

 

 











A figura do coronel era muito comum durante os anos iniciais da República, que utilizava seu poder econômico e até a violência e ameaças para garantir o resultado da eleição dos candidatos que apoiava. Isso ficou conhecido como voto de cabresto.

Ás vezes, me questiono sobre o direito do voto, até onde estamos livres para exercê-lo ou somos uma massa de cidadãos compelidos a votar de acordo com as pressões que nos são impostas.

As pressões são as mais diversas. Começamos pela influência digital ocorrida nas redes sociais e nas mensagens de WhatsApp recheadas de fake news que se tornam verdades; dicotomias irreais criadas para escolha do lado "certo"; imposição de vontades de amigos e familiares; existência de pesquisas de intenções de voto muitas vezes questionáveis que influenciam a votação final; o incentivo ao voto útil que compele a desistir do voto de coração com o objetivo de desenhar um segundo turno favorável; e finalizando com o voto obrigatório, que é o ambiente perfeito para a injunção acima.

Aliado a tudo isso, vimos campanhas recheadas de agressões mútuas de candidatos em substituição às discussões de propostas concretas. E nossos problemas reais, tais como educação, saúde, segurança, desemprego, instabilidade econômica, necessidade de reformas (política, tributária e previdenciária), má gestão pública, quando serão tratados?

O tema corrupção certamente foi o que decidiu nossas eleições em sua grande maioria, não somente na esfera federal como na maioria dos estados brasileiros. Não é nosso único problema, mas a população mandou o recado do basta. Espero que isso seja levado a sério pelos políticos do nosso país. O povo não tolera mais o saqueamento de verbas públicas que deveriam ser direcionadas à população.

Vejo promessas de candidatos por todo o país, às vezes quase num mesmo discurso, passa-se o mandato e absolutamente nada é cumprido. Temas como melhoria da educação e saúde, redução de impostos viraram uma recorrência desleal ao cidadão que só resta dançar o samba me engana que eu gosto. Propostas populistas para agradar ao gosto do "freguês" também não faltaram.

Esta eleição foi marcada por uma mudança radical no modo de fazer política. O uso da tecnologia, das mensagens pelo WhatsApp, das redes sociais foi fundamental à escolha dos nossos representantes, e diversas pessoas passaram a influenciar seu ciclo de relacionamento. Os tradicionais palanques políticos foram substituídos pelas ferramentas de marketing digital e, pelos resultados, foram muito efetivas. Esta estratégia ataca diretamente seu público-alvo. O uso da tecnologia pode direcionar o perfil do usuário, monitorando informações como idade, gênero, comportamento, trabalho, preferências para traçar uma estratégia adequada de divulgação do candidato.

Compete às autoridades competentes averiguar se a utilização dessas ferramentas está sendo feita dentro dos limites legais e éticos. Alguns inquéritos já foram abertos país afora com esse objetivo.

No âmbito federal, a ausência de debates entre os presidenciáveis decorrente do incidente ocorrido com Bolsonaro foi substituída pelo debate entre os eleitores, que passou a uma bipartição generalista entre o candidato "desagregador fascista" versus "corrupto comunista", ambas desprendidas da realidade, na nossa humilde opinião, mas muito fomentada nas redes sociais.

A antítese formada pelo contraste muito nítido das opiniões pessoais gerou discussões intensas e intermináveis, como se o argumentante conseguisse convencer o adversário de que seu time de futebol é muito melhor. O resultado disso foi um país dividido e muitas inimizades formadas.

Democracia não é formada pela unanimidade, mas pela maioria. A construção da democracia passa pelas discussões incessantes para a busca do caminho adequado, respeitando as opiniões diversas e muitas vezes acatando-as. Neste cenário, a oposição tem um papel relevante para a representação política: garantir o respeito aos direitos fundamentais e das minorias, permitindo a fiscalização dos detentores do poder e possibilitando a alternância do poder.

Para tanto, não basta a oposição demagógica e meramente contestatória, sem fundamento, habitual nos ambientes multipartidários como o Brasil, em que as políticas das coligações permanecem difusas e indeterminadas até o interesse adequado ao partido. É preciso se posicionar.

Quem sabe o presidente sem tantas amarras das coligações partidárias seja a solução para busca da equipe mais qualificada. Bolsonaro afirmou que o novo governo será um "defensor da Constituição, da democracia e da liberdade". Ele encontrará muitos desafios pela frente para colocar o país na estrada do desenvolvimento: corrupção, desaceleração da economia, custo da atividade empresarial, desemprego, apoio do Congresso para implementação das mudanças necessárias e bipolarização do país.

Sucesso a todos os eleitos democraticamente (presidente, governadores, deputados e senadores), bem como à equipe escolhida. Nosso país não pode parar.



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