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Estado de Minas

Por que ganhou, por que perdeu?


postado em 05/11/2018 05:06

Acabou. Fim. Chegou a hora de união e pacificação nacional em prol do país, até de oposição, mas madura, sem ódios, sem mágoas. Agora, é descansar, desligar a TV, deitar na poltrona reclinável e ler um bom livro. Ufa! Putz! Eleição é componente da democracia. Sem ela, regimes autoritários deitam e rolam sobre os direitos da cidadania. O que não é nada bom para a tosse republicana. Mas aguentar uma campanha longa e destemperada, como a que acabamos de enfrentar, é dose para muitos leões. Até aquele da Metro Goldwin Mayer de antigamente, abrindo a boca sonolento. Bons e velhos tempos. 

Acabou do jeito que a maioria dos brasileiros desejava, com a derrota de Fernando Haddad, um bom quadro do PT. Jair Bolsonaro, do PSL, foi eleito pelo que é, um político de ficha limpa, e pelo que prometeu: cortar gastos, expulsar da administração e processar e punir todos os ladrões, todos os corruptos que assaltaram e quebraram empresas antes sólidas, Petrobras, Eletrobras, BNDES, e todos os maus políticos que enriqueceram com o que roubaram dos cofres públicos.

Perseguido, vítima de tentativa de assassinato, ameaçado de morte, fragilizado pelas cirurgias, ele sobreviveu e venceu. E promete cumprir o programa de governo que anunciou e confirmou. Os que têm rabo preso, já apavorados, que se cuidem. Vem chumbo grosso por aí.

Aqui em Minas, os eleitores varreram duas lideranças petistas: a ex-presidente Dilma Rousseff, derrotada na disputa de uma vaga no Senado, e o ainda governador Fernando Pimentel, que disputava a reeleição e não conseguiu chegar ao segundo turno. Com o governo que faz, derrota merecida.

As pesquisas indicavam que Antonio Anastasia, ex-governador, professor, senador, disputaria o governo com Pimentel, do PT. Mas surgiu, avassalador, o pouco conhecido Romeu Zema, empresário de sucesso em Araxá: ultrapassou Anastasia, jogando o atual governador para fora da decisão. No segundo turno a avalanche de votos, 71%, de Zema, soterrou seu concorrente, que obteve apenas 28%. Anastasia, digno, correto, ético, elegante, foi mandado de volta ao Senado, onde tem mandato até 2022.

O que aconteceu? é a pergunta que todos se fazem. Aqui do meu canto, como observador que procura ser imparcial e neutro, como o bom jornalismo recomenda, dou meu palpite. Anastasia foi derrotado por ele mesmo. Por lealdade ao PSDB, manteve apoio a Geraldo Alckmin para a Presidência da República, mesmo diante da derrota irreversível do paulista. E se recusou a definir seu voto, no segundo turno, entre Bolsonaro e o petista/lulista Fernando Haddad. Zema, ao contrário, com transparência elogiável, definiu-se logo pró Bolsonaro e conquistou a simpatia dos eleitores do candidato vitorioso.

Só isso? Lógico que não. Anastasia foi derrotado pelo programa insosso e tímido que anunciou. Coisas óbvias, como concluir obras inacabadas de hospitais, aumentar o número de salas de aula, melhorar a assistência médica, cortar despesas (sem especificar), atrair novos empreendimentos (sem dizer quais e como), capazes de melhorar a economia e diminuir o desemprego, renegociar débitos com a União (obrigação lógica do governante), e por aí. Uma programação, diria óbvia, rotineira, de qualquer governador. Nada de maior impacto, de maior repercussão. Em artigo de 22/10/2018, “O amanhã está ali na esquina”, alertei sobre a fragilidade das propostas, sem resultado.

Já Zema, simpático, educado, anunciou e prometeu o que o povo, nós todos, mineiros, queríamos ouvir. Não disse apenas “vou cortar despesas”, mas se comprometeu a cortar 12 das 21 secretarias, 80% dos funcionários comissionados (indicados por políticos do PT), reduzir o número de assessores nos gabinetes, especialmente no do governador, vender a frota de aviões comprada no governo Pimentel, economizando uma despesa anual de R$10 milhões em manutenção, salários dos pilotos etc., também a coleção de  veículos oficiais, todos do ano, deixando apenas os indispensáveis. 

Afirmou que escolherá apenas técnicos para as secretarias; que não receberá a remuneração do cargo; não irá morar no Palácio das Mangabeiras, mas na casa dele mesmo; só viajará em automóvel ou, quando tiver que ir a Brasília, em vôos comerciais; prestará contas de gastos, até de centavos; reduzirá o que for excessivo nos gastos das empresas públicas, privatizando as que forem consideradas privatizáveis; e, atenção, recuperar e restabelecer o transporte ferroviário. Está explicado por que ele ganhou? Vitória justa. Se o que prometeu for executado, Minas estará salva. E uma nova liderança surgirá no país.

Uma observação, ainda: a bandeira anti-Bolsonaro, colocada no alto da fachada de um prédio da União onde funciona uma Faculdade de Direito, foi dele retirada por decisão da juíza Maria Aparecida Costa Bastos, da 199ª Zona Eleitoral do TRE de Niterói (RJ), o que provocou protestos de petistas, da OAB, de professores, da procuradora-geral, de ministros do TSE e do STF. Todos condenando a decisão da juíza, que teria desrespeitado o direito à liberdade de manifestação e de expressão. A ministra Cármen Lúcia, do STF, decidiu, em liminar, revogar a decisão da juíza, e de 12 outros juízes eleitorais que agiram da mesma forma, e mandou recolocar a bandeira na torre do prédio.

Aqui do meu canto ouso lembrar que a Lei Eleitoral 9504/97, art. 37, determina: “É proibido usar bens públicos para propaganda eleitoral como, por exemplo: d) prédios públicos”. O TSE decidiu da mesma forma na Resolução 23551/2017. Afinal, o que se proíbe é colocar bandeiras, faixas, cartazes eleitorais, em prédios da União, dos estados, dos municípios. Proibir, como está na lei, bandeira, faixa, cartaz em prédio público não constitui atentado ao direito de reunião, de manifestação, de expressão, permitidos dentro dos prédios. Salvo melhor juízo.

 

 


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