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Estado de Minas

Vi­tó­ria da de­mo­cra­cia

Em uma democracia não se discute a liberdade de expressão, notadamente nas universidades


postado em 02/11/2018 05:07

A au­to­no­mia das uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras é ga­ran­ti­da pe­la Cons­ti­tui­ção e es­ta con­quis­ta de­mo­crá­ti­ca foi con­fir­ma­da pe­lo Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral (STF), que proi­biu ações po­li­ciais den­tro do es­pa­ço aca­dê­mi­co, co­mo ocor­reu em pe­lo me­nos 17 ins­ti­tui­ções pú­bli­cas e pri­va­das em no­ve es­ta­dos da fe­de­ra­ção, an­tes do se­gun­do tur­no das elei­ções. Sob o ar­gu­men­to de que es­ta­va sen­do fei­ta pro­pa­gan­da elei­to­ral den­tro das uni­ver­si­da­des, de­ci­sões ju­di­ciais e ad­mi­nis­tra­ti­vas de­ter­mi­na­ram a ação de agen­tes po­li­ciais nas ins­ti­tui­ções de en­si­no su­pe­rior. A de­ci­são do ple­no do STF con­fir­mou li­mi­nar da mi­nis­tra Cár­men Lú­cia, que já ha­via sus­pen­di­do as in­ter­ven­ções po­li­ciais pa­ra as­se­gu­rar a li­ber­da­de de ex­pres­são e de reu­nião de es­tu­dan­tes e pro­fes­so­res nas uni­ver­si­da­des.

Em uma de­mo­cra­cia não se dis­cu­te a li­ber­da­de de ex­pres­são, no­ta­da­men­te nas uni­ver­si­da­des, lo­cal ideal pa­ra a li­vre tro­ca de ideias e pen­sa­men­to. Não se po­de acei­tar, sob hi­pó­te­se al­gu­ma e sob pe­na de fe­rir de mor­te o Es­ta­do de­mo­crá­ti­co de di­rei­to, a cen­su­ra no am­bien­te uni­ver­si­tá­rio. Im­pen­sá­vel proi­bir a li­ber­da­de de ex­pres­são e de reu­nião jus­ta­men­te no lo­cal on­de no­vas ideais de­vem aflo­rar, o que con­tri­bui, e mui­to, pa­ra o avan­ço ci­vi­li­za­tó­rio da so­cie­da­de e, em úl­ti­ma ins­tân­cia, do país. Ina­cei­tá­vel ce­nas de po­li­ciais in­va­din­do câm­pus uni­ver­si­tá­rios e re­co­lhen­do do­cu­men­tos, in­ter­rom­pen­do au­las, de­ba­tes e ma­ni­fes­ta­ções de alu­nos e mes­tres. Ce­nas que nos re­me­tem aos anos de chum­bo da di­ta­du­ra mi­li­tar.

A ação vi­san­do sus­pen­der es­sa ver­da­dei­ra afron­ta à li­ber­da­de de ex­pres­são foi mo­vi­da pe­la Pro­cu­ra­do­ria-Ge­ral da Re­pú­bli­ca, após a vei­cu­la­ção de no­tí­cias so­bre me­di­das que proi­bi­ram pro­pa­gan­da elei­to­ral ir­re­gu­lar em uni­ver­si­da­des pe­lo país. Mas coi­bir pro­pa­gan­da elei­to­ral em es­pa­ços pú­bli­cos, co­mo re­za a le­gis­la­ção elei­to­ral, não sig­ni­fi­ca im­pe­dir o li­vre in­ter­câm­bio de ideias. A au­to­no­mia e o plu­ra­ris­mo no meio aca­dê­mi­co não po­dem e não de­vem ser ata­ca­dos. Os di­rei­tos fun­da­men­tais da li­ber­da­de de ma­ni­fes­ta­ção do pen­sa­men­to, de ex­pres­são da ati­vi­da­de in­te­lec­tual e de reu­nião têm de ser pre­ser­va­dos a qual­quer cus­to.

A de­ci­são unâ­ni­me do STF é uma vi­tó­ria da de­mo­cra­cia. Os no­ve mi­nis­tros pre­sen­tes à apre­cia­ção da ma­té­ria de­fen­de­ram com vee­mên­cia a li­ber­da­de da cá­te­dra, de reu­nião e de ex­pres­são. A ver­da­de é que as de­ter­mi­na­ções ju­di­ciais que per­mi­ti­ram as in­ter­ven­ções nos es­pa­ços uni­ver­si­tá­rios fe­ri­ram es­te di­rei­to bá­si­co. Co­mo bem per­gun­tou o mi­nis­tro Ale­xan­dre de Mo­raes, co­mo uma de­ci­são da Jus­ti­ça po­de im­pe­dir uma au­la que ain­da vai ocor­rer?. A Cons­ti­tui­ção é mui­to cla­ra ao afir­mar que de­ci­sões que proí­bem pa­les­tras e au­las que iriam acon­te­cer ul­tra­ja a li­ber­da­de de reu­nião, de ex­pres­são, com cen­su­ra pré­via, o que é inad­mis­sí­vel.

O cer­to é que a pos­tu­ra do STF sig­ni­fi­ca não só a pre­ser­va­ção da au­to­no­mia da uni­ver­si­da­de no Bra­sil e da li­ber­da­de de ex­pres­são, mas tam­bém uma re­tum­ban­te vi­tó­ria da de­mo­cra­cia. Que a de­ter­mi­na­ção da Su­pre­ma Cor­te sir­va de aler­ta pa­ra os que exe­cram a to­le­rân­cia e o li­vre pen­sa­men­to nu­ma so­cie­da­de que de­fen­de e va­lo­ri­za a plu­ra­li­da­de de ideias e pen­sa­men­tos de­mo­crá­ti­cos.


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