O combate ao desmatamento sofre uma permanente escassez de recursos, segundo o Observatório do Clima. Em relatório intitulado A conta chegou: o terceiro ano da destruição ambiental sob Jair Bolsonaro, a instituição afirma que dos R$ 219 milhões de recursos recebidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em 2021, apenas R$ 88 milhões foram utilizados para a fiscalização ambiental até o final do ano passado.
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Justiça dá 90 dias para Ibama voltar a fiscalizar rotas de produtos florestais no MAProjeto de lei quer acabar com porte de arma de fiscais do IbamaIbama rejeita pedidos de flexibilização de regras ambientais feitos pela Economia'Pai' de capivara pet é multado em R$ 17 mil pelo IbamaIbama corre risco de paralisação após bloqueio de R$ 90 milhões no Meio AmbienteO documento ressaltou ainda que, para a prevenção e controle de incêndios florestais, foram direcionados R$ 40,3 milhões, ou 70% do valor previsto. No ICMBio, a utilização dos repasses para o combate ao fogo também foi alta, de R$ 63,7 milhões, 73% do orçamento.
Porém, o número de autos de infração por desmatamento, calculados pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia por Satélites (Prodes), foi de 2.534. Esse número ficou 40% abaixo dos autos registrados pelo governo anterior. As autuações por embargos de propriedade — importante instrumento para combater o desmatamento — despencaram 70% em relação a 2018. No ano passado, foram 772 registros. Já no caso das apreensões, foram 452 — queda de 81% se comparado com os registros de 2018.
Na comparação com a gestão de governos anteriores, o estudo do Observatório do Clima constatou que o Ibama gastou menos da metade no repasse com operações de campo. A porcentagem anual oscilava entre 86% e 92% para a fiscalização. No terceiro ano do governo Bolsonaro, esse índice caiu para 41%.
O relatório menciona uma declaração recente do presidente, na qual ele comemora a diminuição de multas ambientais. "Paramos de ter grandes problemas com a questão ambiental, especialmente no tocante à multa. Tem que existir? Tem. Mas conversamos e nós reduzimos em mais de 80% as multagens no campo", disse Bolsonaro no mês passado.
A conclusão do estudo é de que a inoperância do Ibama é uma consequência da "falta de vontade" em se combater crimes ambientais. Para Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, a situação reflete o projeto Bolsonaro de afrouxar a fiscalização ambiental. "O governo não botou gente em campo a mais, não quis fazer uma fiscalização mais forte. Para o governo Bolsonaro, a fiscalização ambiental atrapalha, é um entrave que tem que ser eliminado", comentou.
Além disso, a gestão do governo atual manteve congelado, pelo terceiro ano seguido, o Fundo Amazônia, que contém mais de R$ 3 bilhões de recursos internacionais para ser direcionado ao combate ao desmatamento — valor recebido por meio de doação.