Jornal Estado de Minas

NACIONAL

Brasil está entre países menos favoráveis ao aborto, mas apoio cresceu em 2021

Em uma pesquisa internacional, quando perguntados se "o aborto deve ser permitido sempre que uma mulher assim o desejar", apenas 31% dos brasileiros responderam que sim — colocando o Brasil como o quinto menos favorável à legalização total do aborto em um conjunto de 27 países analisados pela edição de 2021 do estudo Global Views on Abortion, da Ipsos.





 

A média de aceitação à descriminalização do aborto sempre que for o desejo da mulher foi de 46% nos países pesquisados. Atrás do Brasil no baixo apoio a esta afirmação ficaram apenas a Colômbia (26%), o México (24%), o Peru (15%) e a Malásia (14%).

 

Na pesquisa, havia outras três opções de resposta: "o aborto deve ser permitido em determinadas circunstâncias, por exemplo, no caso de uma mulher ter sido estuprada"; "o aborto não deve ser permitido em hipótese alguma, exceto quando a vida da mãe estiver em risco"; e "o aborto nunca deve ser permitido, não importando sob quais circunstâncias". No Brasil, o apoio a estas foi de respectivamente 33%, 16% e 8%, além de 13% que não souberam ou não quiseram opinar.

 

Apesar de no quadro global o país aparecer entre os menos favoráveis à legalização total do aborto, em 2021 o Brasil chegou ao percentual mais alto de pessoas opinando que o procedimento deveria ser permitido total ou parcialmente (soma das respostas "o aborto deve ser permitido sempre que uma mulher assim o desejar" e "o aborto deve ser permitido em determinadas circunstâncias, por exemplo, no caso de uma mulher ter sido estuprada). Neste ano, esse percentual chegou a 64%, enquanto em 2014, o valor foi de 53%.





 

 

 

Entretanto, o apoio à descriminalização do aborto no Brasil não cresceu constantemente ano-a-ano — pelo contrário, oscilou bastante. Entre 2015 e 2019, variou entre 50% e 61% e, em 2020, voltou a 53%. Agora, em 2021, saltou 11 pontos percentuais.

 

"É um dado que oscila na opinião pública porque ainda é um tema considerado tabu na sociedade (brasileira). Ele sofre bastante influência de característica culturais, de como historicamente a sociedade encara esse tema, que é delicado" explica Priscilla Branco, porta-voz do estudo e gerente de Public Affairs da Ipsos no Brasil.

 

A especialista aponta que fatores internos de um país, como o debate público sobre algum projeto de lei acerca do aborto, podem levar a alterações nestes dados em determinados anos, assim como fatores externos. No Brasil, a movimentação recente de países vizinhos pode ter levado à maior aceitação da descriminalização do aborto.





 

No último mês de 2020, o Senado argentino aprovou a legalização do procedimento nas primeiras 14 semanas de gestação. Antes, a legislação do país era tão restritiva quanto a brasileira, prevendo aborto apenas em casos de estupro ou quando a saúde da mãe estava em risco.


Pesquisas por pílulas abortivas na internet são mais frequentes nos países onde a legislação é mais restritiva (foto: Getty Images)

 

A Coreia do Sul descriminalizou o aborto no início de 2021 e, assim como a Argentina, apresentou um percentual maior de pessoas favoráveis à legalização do procedimento nas edições de 2020 e 2021 da pesquisa da Ipsos.

 

Priscilla Branco aponta também como influência externa para o Brasil a formação de uma assembleia constituinte no Chile, que embora não tenha como foco o aborto, está "mais inclusiva e feminina".





 

Já o Brasil ainda é "conservador" na temática do aborto, segundo a pesquisadora da Ipsos, o que é demonstrado pelo "medo da classe política de tratar esse tema com transparência". Entretanto, a chegada em 2021 a um percentual de 64% dos entrevistados favoráveis à legalização total ou parcial do aborto pode ser reflexo de um "amadurecimento" da sociedade brasileira sobre os direitos das mulheres.

 

Uma outra pesquisa da Ipsos, publicada em março, mostrou que o Brasil estava entre os 28 países onde os entrevistados mais concordavam que acabar com a disparidade salarial entre gêneros deveria ser uma prioridade nacional.

Homens são menos favoráveis

A pesquisa global sobre a permissão ao aborto foi realizada em plataforma online com cerca de 20 mil pessoas, 1.000 delas no Brasil. Para o país, a margem de erro é de 3,5 pontos percentuais.





 

Na média dos 27 países analisados, o percentual de pessoas favoráveis à permissão parcial ou total do aborto (soma das respostas "o aborto deve ser permitido sempre que uma mulher assim o desejar" e "o aborto deve ser permitido em determinadas circunstâncias, por exemplo, no caso de uma mulher ter sido estuprada") foi estável entre 2014 e 2021, variando de 70% a 75% ao longo dos anos. Em 2021, o valor foi de 71%.

 

Nos primeiros lugares de países mais favoráveis estão a Suécia (88%), Holanda (85%) e França (81%); nas últimas posições, estão Turquia (56%), Peru (53%) e Malásia (30%).

 

As mulheres se mostraram mais favoráveis à permissão parcial ou total do aborto (73%) do que os homens (69%).


Criminalização faz com que Getty Images)

Especificamente a afirmação "o aborto deve ser permitido sempre que uma mulher assim o desejar" teve apoio de 50% das mulheres e de 43% dos homens. Já a frase "o aborto deve ser permitido em determinadas circunstâncias, por exemplo, no caso de uma mulher ter sido estuprada" teve concordância de 23% das mulheres e 26% dos homens.





 

Globalmente, quanto maior a escolaridade, maior o percentual de pessoas favoráveis parcial ou totalmente à descriminalização do aborto: este foi de 74% entre aqueles com grau mais alto; de 70% no nível de educação médio; e 66% com grau baixo.

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