Jornal Estado de Minas

CRUZADA IDEOLÓGICA

Conselho de Biblioteconomia repudia retirada de livros da Fundação Palmares


Depois do anúncio feito pelo presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, para a retirada de mais de 5 mil livros do acervo do órgão, o Conselho Federal de Biblioteconomia publicou nota em repúdio à decisão. Segundo a nota, o órgão ignora os critérios técnicos e científicos da biblioteconomia e os princípios que regem a administração pública.




 
A fundação publicou,  em 11 de junho, relatório que informa que no acervo constam 9.565 exemplares, sendo 46% de temática negra (4.400 títulos) e 54% de temática alheia à negra (5.165). A fundação pretende retirar do acervo obras de Caio Prado Jr., Celso Furtado, Eric Hobsbawm, Karl Marx, Max Weber e Machado de Assis.
 
Conselho de Biblioteconomia aponta a ausência da participação de bibliotecários e da comunidade atendida na elaboração do relatório (foto: Reprodução)
 
A medida, no entanto, foi vista como mais uma ação ideológica de Sérgio Camargo. "Embora valendo-se do intitulado 'Retrato do Acervo: três décadas de dominação marxista na Fundação Cultural Palmares', tal documento não se caracteriza como uma política de desenvolvimento de coleções, o que seria esperado de qualquer biblioteca, particularmente se vinculada a um ente federativo", escreve o conselho.
 
O Conselho de Biblioteconomia ainda aponta a ausência da participação de bibliotecários e da comunidade atendida na elaboração do relatório. "O documento supracitado estabelece critérios pessoais, insólitos e descabidos, o que pode gerar lesividade ao patrimônio bibliográfico do país."




 
O relatório foi elaborado por uma equipe comandada por Marco Frenette, coordenador-geral do Centro Nacional de Informação e Referência da Cultura Negra (CNIRC).

"Este levantamento temático, conduzido pelo CNIRC, sob minha direção e com trabalho árduo e dedicado de minha equipe, é mais um passo nessa adequação fundamental iniciada em 2019."

Frenette foi nomeado para CNIRC pelo ex-assessor de Roberto Alvim, demitido do cargo de secretário da Cultura depois de aparecer em vídeo que fazia apologia ao nazismo.
 
O Conselho de Biblioteconomia destaca que a ação, diferentemente do que diz Frenette, tem caráter ideológico. "Ao pretender justificar a eliminação do acervo construído pelas gestões anteriores valendo-se de uma linguagem depreciativa e infundada, a Fundação Palmares expõe a ingerência ideológica numa atividade que deveria primar pela técnica."

Os bibliotecários ressalam que a medida é ainda mais danosa  por se tratar de uma biblioteca financiada com dinheiro público. A nota lembra que as ações da fundação deveriam ser regidas por princípios da indisponibilidade do interesse público pelos administradores do Estado, bem como o da impessoalidade, que devem afastar de seu seio afinidades ou animosidades políticas ou ideológicas. 




 
A retirada dos livros do acervo dá sequência às ações polêmicas de Sérgio Camargo à frente da fundação. 
Ele determinou a mudança do logotipo do órgão.  
Também retirou homenagem a personalidades negras agraciadas pela Palmares, como as ex-ministras Benedita da Silva e Marina Silva.

audima