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Estado de Minas ENTREVISTA

Mandetta e Teich listam sucessivos erros do governo após 1 ano de pandemia

Em entrevistas exclusivas, ex-ministros da Saúde traçam o caminho da crise no combate à COVID-19 e alertam para a gravidade com a mutação do coronavírus


25/02/2021 22:05 - atualizado 26/02/2021 08:12


Eles já estiveram no olho de um furacão que parece não ter fim. Ex-ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich fizeram parte do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) durante parte da pandemia do novo coronavírus. Desde o primeiro caso da doença, em 26 de fevereiro de 2020, até a demissão de Mandetta, em 16 de abril, passaram-se 51 dias. Teich, o sucessor, ficou 28 dias no cargo.

Em entrevistas exclusivas ao Estado de Minas, os ex-ministros médicos traçaram o caminho da crise e falaram de temas como a postura do presidente ante a COVID-19 e a pressão sofrida pelo sistema de saúde. 

Mandetta e Teich responderam aos mesmos questionamentos. Apesar de algumas divergências, concordam em que o momento é de extrema gravidade. A imprevisibilidade do vírus é citada por ambos como fator que dificulta a resposta ao surto.

O que o senhor faria de diferente se soubesse o que se sabe agora, um ano depois, sobre o vírus? 

MANDETTA:
Se tivéssemos as informações da China e da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que o vírus era altamente contagioso — e não aquilo que mostraram no começo, que era um vírus lento e pesado — teríamos redimensionado a testagem. Essa era a grande informação que a gente precisava ter naquele momento. O resto foi processo de trabalho.

TEICH: A gente não sabe como a pandemia vai evoluir. Há sete dimensões importantes para trabalhar situações como essa: estratégia, planejamento — isso é fundamental —, liderança e coordenação, muita informação em tempo real — porque se você não consegue ter informação, não consegue diagnosticar o momento para entender o que fazer —, o tempo de execução tem que ser rápido e é preciso se comunicar muito bem e muito rápido com a sociedade, com todos os envolvidos no processo.

É preciso levar em conta o quanto o sistema de saúde consegue cuidar, porque muito das situações muito graves de hoje são de lugares que já estão no limite de atendimento. Isso confunde um pouco a percepção da gravidade do momento, pois vemos um sistema sobrecarregado, que passa a ser o foco. Mas quando se analisa e consegue comparar estados e cidades, com mortes de milhão por dia, por exemplo, vemos a diferença entre esses estados e cidades. Não é para mostrar que a cidade está bem; é para mostrar qual o risco de piorar muito.

Tem de haver comunicação muito forte entre estados, cidades e governo federal. Não usaria, como avaliação, os percentuais de leitos vazios e ocupados. Não dizem, exatamente, os recursos que se têm. O que é preciso ter como gestor? Quanto acho que vou precisar de leitos, quanto tenho e quão rápido consigo evoluir. A discussão não é se vai haver hospital de campanha ou não. Precisa de leitos. Temos que ter um programa de distanciamento. Não é só testar. É testar, isolar, dar condições para a quarentena e isolar.

O Brasil atravessa o pior momento da pandemia. Há um mês a média móvel de mortos está acima de mil, enquanto algumas capitais têm quase 100% de UTIs ocupadas. O que deu errado?

MANDETTA:
O governo errou quando sabotou o planejamento inicial de proteção. É a primeira linha: como as pessoas fazem para evitar pegar a doença. O governo estimulou que se arriscassem e levassem a doença para suas casas. Contaminaram pais, mães e familiares em nome de um comportamento que o presidente estimulou. Fecharam leitos de CTI que tínhamos habilitado. Pararam de pagar a partir de outubro, achando que a doença tinha terminado. Hoje, há menos leitos de CTI disponíveis.

Estimularam as pessoas a acreditar que, se tomassem remédios sem comprovação, como a cloroquina, teriam solução benigna. Isso é a maior mentira mundial. Só o Brasil e seu presidente para fazer isso. Agora ele nega, mas induziu as pessoas a acharem que ‘se eu pegar a doença, tomo cloroquina e está resolvido’. Não adquiriram as vacinas em agosto, setembro ou outubro, quando foram oferecidas. Agora, correm atrás de vacinas que ainda não têm a fase três (de testes), em vez de negociar com aquelas (em estágio avançado).

Perderam o timing. Não adianta comprar a vacina: é preciso conversar com a rede nacional de saúde, liderar. Ali não é lugar de comando militar; é local de liderança pelo exemplo e pelo comportamento. O Brasil não tem, hoje, liderança em saúde por parte do governo federal. São basicamente as famílias lutando com as armas que têm. Não existe absolutamente nada além disso. Os prefeitos e governadores tentam minimizar essas ações, mas são devidamente boicotados pelo governo federal.

TEICH: A pandemia mostrou a fragilidade de todos os sistemas, não só no Brasil. O Brasil, embora seja o segundo em número de mortes — só perde para os Estados Unidos —, é o 26° em mortes por milhão. Países como Reino Unido, Itália, Espanha e Estados Unidos, com condições consideradas melhores que as do Brasil, tiveram resultados piores. A capacidade de lidar com essa pandemia não é do tipo “se tivesse feito um esforço um pouco maior, tinha dado tudo certo”. Não é isso. É muito difícil.

Os sistemas de saúde trabalham tentando ser o mais eficientes possível. Se não tem dinheiro sobrando, ele precisa ser usado da melhor forma. Aí, trabalha do jeito que pode em eficiência. Com uma doença como essa, com sobrecarga aguda, os sistemas têm dificuldades para trabalhar. Aqueles que conseguiram controlar a transmissão foram melhores pois evitaram alto número de doentes. Quem não consegue, fica sobrecarregado.

Os Estados Unidos são o país que mais gasta com saúde no mundo. No ano passado, a projeção era de R$ 64 mil por pessoa por ano. No SUS, eram R$ 2,1 mil. Mesmo com todo esse dinheiro, estão performando mal. Não é só dinheiro. É dinheiro, é gestão, e outras coisas que precisam entrar em jogo. A COVID-19 mostra que os sistemas de saúde têm que ser realmente revistos. Nenhum país consegue ficar competente da noite para o dia.

Se já não tinha capacidade em dados, em gestão, e coordenação, não consegue da noite para o dia. Isso é impossível. Não é para justificar, não quer dizer que o Brasil está indo bem; é para mostrar que isso é um problema mundial.

Qual a responsabilidade do presidente Bolsonaro ante os mais de 251 mil brasileiros mortos em um ano de pandemia? Parte dos óbitos era evitável?

MANDETTA:
Ele vai carregar isso nos livros de História. Sempre. E deve levar isso, também, para seu travesseiro e sua consciência. A gente sabe que muitas vidas poderiam ter sido poupadas e que outras poderiam ter sido perdidas. Mas entregar o jogo no primeiro tempo? Não lutar e entregar a vida das pessoas em nome de um falso dilema entre economia e saúde? Deixar as pessoas à própria sorte dizendo “elas que se contaminem, pois quero imunidade de rebanho”? Isso daí é de uma maldade antes de qualquer coisa. Do ponto de vista legal, eles têm muitos subterfúgios para se esconder.

TEICH: Esse tipo de pergunta, hoje, não tenho como responder com precisão. As pessoas, hoje, têm uma tendência de tentar achar uma razão de culpa ou um culpado. Isso é muito ruim, porque gera polêmica e conflito. É a política falando acima da técnica. Esse tipo de pergunta é política, e não sou a melhor pessoa para responder, porque minha condição é muito mais técnica.

Qual o cenário para os próximos meses? Sentiremos o impacto das variantes e teremos uma megaepidemia?

MANDETTA:
Vivemos uma megaepidemia com viés de alta. Estamos, praticamente, com todas as capitais do Nordeste — e conversei com Rio Grande do Norte, Fortaleza e João Pessoa — lá em cima (nos números da pandemia). Todos tentando fazer um tipo de lockdown ou algo similar. O Rio Grande do Sul, nesta semana, vai passar por um problema de estrangulamento (falta de leitos). No Sudeste — em São Paulo, Minas e Rio de Janeiro — o aumento de casos é entre março e abril. A tendência é que o Sudeste aumente os casos progressivamente.

A velocidade com que o vírus está se propagando é muito mais rápida que a velocidade da vacinação. Você vai vacinando e convivendo com a doença. As pessoas vão tendo a sensação de que a vacina já chegou e, por isso, podem fazer tudo. A vacina está servindo de álibi e as pessoas estão querendo suas vidas de volta, o que é legítimo, mas antevejo aumento, ainda maior, do número de perdas. Até lá (vacinar cerca de 60% da população), vamos convivendo com a situação e levando sustos, todos os dias, com cidades com maior índice. Goiás está em situação crítica.

O governador do DF quer fechar Brasília, para que não entre gente de Goiás ou do Tocantins. Já começa a haver esse tipo de situação, em que irmão desconhece irmão, por conta da absoluta falta de prevenção, falta de clareza sobre tratamentos, vagas e hospitais. Médicos, enfermeiros e fisioterapeutas estão esgotados. Muitos morreram dessa doença, assim como familiares. Eles estão para lá de esgotados, o que gera uma somatória muito complexa para calcular o que vem pela frente. Entram outras variáveis, como termos passado quase todo o ano passado sem fazer cirurgias eletivas.

Casos de câncer e cirurgias que deveriam ter sido feitas em 2020, agora chegam tardias. Muita gente chegando por não ter feito check-up ou prevenção cardíaca. Espero que Fiocruz e Butantan comecem a produzir em escala maior, para a gente chegar em julho pelo menos com a população de maior risco vacinada. No segundo semestre, deixamos para os abaixo de 60 anos, conseguindo chegar entre 160 milhões e 170 milhões de vacinados até o fim do ano. 

TEICH: Todas as previsões feitas no começo deram errado, pois é muito difícil saber, na prática, o que vai acontecer. Depende da existência de novas variantes, da eficácia das vacinas, da rapidez de modificação delas para pegar novas variantes e da capacidade de manter pessoas isoladas. O gestor não pode tentar adivinhar o futuro, mas sim construí-lo.

Você tem que pensar em todas as possibilidades: das menos prováveis as mais prováveis, principalmente se as menos prováveis são muito graves, catastróficas. As previsões não podem ser tomadas como verdade, pois às vezes, relaxa-se um pouco. A única coisa que não pode ser feita em momentos como esse é relaxar. Não sabemos como vai evoluir.

Grandes cidades brasileiras, como Araraquara e Uberlândia, estão próximas do colapso. Estados como São Paulo e Rio Grande do Sul nunca estiveram em situação tão difícil. O que é possível fazer agora?

MANDETTA:
O mesmo que sempre falei: proteja-se, não se exponha e não saia de casa, se possível. Se sair, guarde distância de três metros das pessoas. Use máscaras e lave as mãos muitas vezes ao dia — se não tiver álcool, use água e sabão. Evite aglomerações. Não pense que é um passeio no parque. É uma doença grave e que não tem previsibilidade. Há gente jovem que achamos que vai sair tranquila, mas morre; há gente de idade que achamos que pode ter problemas, mas se sai bem.

Ainda há muita coisa dessa doença que não está bem explicada. Segundo: vacinas. Tendo a oportunidade, vacine-se. Vacina, vacina e vacina. Pena que este governo é tão ruim e não está entregando as vacinas ao SUS, que tem uma das maiores experiências do mundo em sistema de vacinação. Temos uma Ferrari e um motorista de Toyota Bandeirante que não pôs gasolina para a Ferrari andar.

TEICH: É a mesma coisa que tinha que ter sido feita antes. Nesses lugares têm que tentar reduzir a transmissão. O que faz a doença espalhar? As pessoas estão infectadas há quanto tempo? Nesse intervalo, transmitem por quanto tempo? Em qual intensidade? Se relacionam com quantas pessoas? A transmissibilidade tem de ser controlada usando máscara, distância, ambiente aberto e lavagem de mão. Em situações muito críticas, é preciso atitude mais radical, de deixar as pessoas afastadas.

Idealmente, seria preciso um programa de controle de transmissão — na época de governo, queriam saber se era horizontal ou vertical — e eu dizia para mim que o importante era rastrear, pegar a pessoa que teve COVID-19, mapear contatos, isolar e fazer quarentena. Existem até algumas técnicas de vacinação em que essas pessoas são priorizadas. Chama-se sistema de anel. Aí, tem que manter os cuidados ou o distanciamento.

Nesse caso, tem que mapear a proporção das variantes em cada lugar e intensificar o programa de vacinação. Tem que ter os programas genético e de vacinação. É preciso mapear o Brasil para poder alocar de forma mais eficiente as vacinas. As pessoas confundem um pouco quem foi vacinado e quem foi imunizado. Se a CoronaVac dá 50% (de eficácia) e a da Pfizer dá 95%, se 70% da população for vacinada, não vai haver o mesmo grau de imunidade. Os dados de lugares onde os programas de vacinação estão sendo implantados com mais força, como Reino Unido e Israel, serão muito importantes para entender o nível de vacinação.
(foto: Quinho)
(foto: Quinho)

Mandetta também respondeu aos seguintes questionamentos:

Em um dos cenários traçados pelo Ministério da Saúde, o então diretor Júlio Croda, previa 180 mil mortes caso o país não adotasse as medidas necessárias de distanciamento, higiene e proteção. Por que o Brasil ultrapassou a previsão mais sombria feita pela sua equipe?   
A gente fez três cenários: um super otimista, um realista e outro, que acabou se confirmando. Cada um coordenado por um grupo. Croda trabalhou com esse cenário. Era um número para 2020, terminando. Foi calculado 180 mil (mortes). Chegamos a 31 de dezembro com 192 mil óbitos. Mostrei para o presidente que, se ele fosse por aquele caminho, chegaria nisso. E chegou.

O senhor conta em seu livro que fez sua primeira crítica pública à OMS no dia 26 de fevereiro. Onde a OMS errou?
Ela errou, primeiro, ao passar para o mundo que a velocidade do vírus era lenta. Eles falaram ‘tem um vírus novo, em uma cidade chamada Wuhan. Vai ser feito um bloqueio na cidade e, como houve muitos contágios, estamos fazendo um hospital de campanha’. A China foi mantida aberta, viajando. (A COVID-19) não foi dada como pandemia.

A OMS disse: “fiquem alertas e façam vigilância”, ou seja: se uma pessoa for identificada com a doença e bloqueada, praticamente fecha-se a probabilidade de contaminar outra pessoa. A OMS passou a informação de que o vírus era pesado, lento. Depois de um mês, quando o vírus começou a sair da China — e aparecer na Coreia, na Península Asiática, no Japão, derrubando o sistema de saúde do Irã e, depois, da Itália —, para eles falarem que era uma pandemia, pois isso envolveria uma emergência global, mudando uma série de protocolos.

O Brasil foi o primeiro país a dizer que tratava-se de uma pandemia. Falei, de Brasília, que a OMS precisava reconhecer que era uma pandemia. No outro dia, o presidente da organização me rebateu dizendo que eu estava equivocado, que não era uma pandemia — e que devíamos tratar isso localmente. Como o Brasil, um país com 17 mil quilômetros de fronteiras com a América do Sul, fora o Oceano Atlântico e todos os terminais aeroportuários, pode falar que um vírus daquela velocidade seria possível de ser administrado? Se tivéssemos, desde o começo, falado que a velocidade do vírus é muito alta, teríamos redimensionado. 

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, declarou ao jornal "O Globo" no domingo: “O ministro Pazuello se comunica muito mal. Eu costumo dizer que, se a gente tivesse o Mandetta comunicando e o Pazuello trabalhando, a gente tinha a dupla ideal.”Afinal, o problema no Ministério da Saúde é de logística ou de comunicação? 
(O problema) é de incompetência. Se eu estivesse no Ministério da Saúde, ele (Pazuello) não seria da minha equipe de trabalho. Ele não sabe trabalhar a saúde. Cada um no seu quadrado. Não sei pilotar avião; não adianta me colocar lá, pois terei a autocrítica de falar que, se eu pilotar, vou derrubar a aeronave e matar pessoas. Ele é de Exército. A logística dele é para comprar botinas e coldres, montar barracas. Ele quer matar o inimigo dele.

E, no caso da saúde, não é assim. Ele não tem a competência para isso. É errado. Se colocá-lo para pilotar um navio, também não saberá. Para isso há a Marinha. Ele não é do ramo. Não sabe trabalhar a saúde. Está aprendendo — e falou que não conhecia o SUS. Ele acha que um secretário municipal de Saúde é uma espécie de cabo, que um secretário estadual é uma espécie de major e, ele, uma espécie de general-geral de saúde. E as pessoas não existem; são apenas massa. Não pode ser desse jeito. A pessoa está trazendo problemas muito grandes à vida das famílias brasileiras, com a nomeação e a concordância do presidente da República. 

Teich também respondeu aos seguintes questionamentos:

Como as disputas políticas atrapalharam o combate à COVID-19 no Brasil?
Tudo o que leva à falta de cooperação e coordenação torna o processo menos eficiente. Uma das razões de a gente ter conseguido essa evolução das vacinas foi a cooperação entre cientistas e países, junto do avanço da ciência. Só para ter ideia, o vírus da Aids começou a ser diagnosticado em junho de 1981. O genoma do vírus, pelo o que vi, foi mapeado completamente em 2009. Levou 28 anos para fazer isso.

O primeiro relato de uma pneumonia viral atípica que gerou toda essa movimentação em Wuhan foi em 31 de dezembro. Em 11 de janeiro, o genoma já estava mapeado. Isso foi passado para o mundo inteiro trabalhar em cima disso. Veja a diferença entre ter um programa de cooperação e um programa de competição. Num momento como esse, a colaboração é fundamental.

O problema do embate político é que muitas vezes, em situações como essa, há muita incerteza e desconhecimento — conhecemos pouco da COVID-19. Se você tem que ir aprendendo todo dia, tem que tomar decisão com aquela informação que tem hoje. Quando escolhas são feitas sem que não tenha certeza, é preciso rever a todo o tempo. É natural. Nessa revisão, vai haver coisas que não foram tão boas — e que vão ter que ser mudadas. Se essa mudança é tratada como um erro e uma razão para agredir e criticar, tem uma dificuldade enorme, porque tudo deveria ser um processo de cooperação constante.

O que o senhor tem a dizer sobre os esforços para trazer, ao Brasil, os estudos para a vacina de Oxford?
Na época em que eu estava no Ministério (da Saúde), tínhamos duas vacinas que estavam em franca evolução: de Oxford e da Moderna. Eram as que estavam aparecendo. Trazer os estudos naquela época era um caminho para trazer as vacinas, se dessem certo. Tivemos alguns problemas com a vacina de Oxford, porque a gente teve opção, na época, logo no começo, eu já tinha até saído (do Ministério da Saúde), mas chegamos a ter a opção de ter 30 milhões de doses em dezembro.

Depois ficaram 15 milhões em dezembro e 15 milhões em janeiro. Aquele problema que deu com a vacinação, do estudo, no Reino Unido, onde fizeram a dose errada - uma parte tomou metade da dose - atrapalhou a evolução natural da vacina. Isso prejudicou a gente. Se não tivesse acontecido, teríamos, hoje, pelo menos 30 milhões de doses só de Oxford.

Temos, também, um problema das empresas que desenvolvem as vacinas, de entregar o que prometem. Toda hora aparece nos jornais que não entregaram na Europa ou não entregaram nos Estados Unidos. As promessas são feitas com base em cenários em que tudo tem que dar certo. Se algo dá errado, já não consegue entregar. A sensação que tenho, hoje, é de que as promessas e expectativas estão acontecendo diante de uma situação de que quase nunca acontece de que tudo tem que dar certo. Esse é um outro problema.

Em relação às vacinas, temos que tomar cuidado porque, mais uma vez, vimos a diferença dos países ricos para os que não são ricos. Esses contratos que foram feitos, foram de risco. Aportou-se um dinheiro grande — estamos falando de bilhões de reais e de dólares — que, se tivesse dado errado, seria perdido. Hoje avaliamos isso depois do resultado de sucesso das vacinas, mas quando você vai tomar a decisão lá atrás você não sabe se vai dar certo ou não. Se você olhar o estudo que foi publicado ontem sobre Israel, mostrando como a vacina da Pfizer funciona em Israel, é fantástico.

Então temos um problema que não tínhamos na variante da África do Sul e nem na do Brasil, pois elas têm uma variação genética adicional à variante do Reino Unido, que é justamente a variante que é mais resistente às vacinas, aos anticorpos de infecções prévias. Hoje, precisamos de um mapeamento de genoma no Brasil. O ideal é que seja um programa mundial, mas é ideal ter no Brasil, porque você tem que mapear como essas variantes estão se espalhando.

Tem duas, uma que é a P2, do Rio, mas tem uma que está chamando mais a atenção que é a variante de Manaus, mas nada impede que você desenvolva variantes mais graves em cima das atuais variantes, então você tem que ter um programa para mapear como que essas variantes se espalham pelo Brasil, para tentar antecipar, porque aí você olha: “Isso migrou para tal e tal cidade, tal estado, então tem o risco de acontecer o que aconteceu no Amazonas em tal lugar”.

Você antecipa para preparar a estrutura (leitos, recursos humanos, vacinação), porque os resultados da Pfizer foram fantásticos. Você reduz, inclusive, a própria transmissão, porque se você tiver uma variante que não responde a vacina, só vai adiantar para proteger da outra. Mais uma vez voltamos à preocupação de que é preciso continuar se protegendo. É preciso continuar usando máscara, adotando distanciamento.

A grande transmissão, hoje, é por via respiratória. Então esses cuidados têm que continuar. Você começa a ver lugares do Brasil em que as curvas começam a aparecer, aparentemente, numa segunda curva - tomara que não evolua como em Manaus -, mas você não sabe se você já está começando a replicar a variante de Manaus em outros lugares.

O que o senhor gostaria de ter feito à frente do Ministério da Saúde e não conseguiu? A maior frustração?
Não foi frustração, até porque fiquei pouco tempo e o que eu tinha que fazer, comecei a fazer ali. A gente começou a discutir programa de testagem, programa de distanciamento, uma revisão da linha de cuidado - e aí não tem nada a ver com remédio, tem a ver com oxigênio, fisioterapia, internação. Visitar os lugares era fundamental.

Um projeto que teria que ser um projeto mais de estado do que de governo. Era um programa para reestruturar todo o sistema de informação. Porque, por exemplo: esse trabalho que foi feito em Israel, o que aconteceu lá? A Pfizer negociou com Israel. A Pfizer investiu em Israel porque Israel tinha capacidade de gerar dados muito grandes e muito rápidos. Israel tinha a saúde digitalizada há muito tempo, os hospitais todos tinham o mesmo prontuário, então você tem um sistema de informação forte e te permite fazer um diagnóstico do que tá acontecendo, como por exemplo, eu tenho hoje um lugar onde há muita morte por internação e outro com pouca, eu tenho que entender porque.

Posso pegar esse lugar que tem resultado melhor e boto ele para conversar com quem tem resultado pior e eu vejo se os recursos humanos são equivalentes ou não. Tudo isso vem de informação. No período em que eu estive lá, a ideia era começar um grande programa de informação para termos um sistema mais robusto. A informação tem uma vantagem enorme. Ela te permite fazer um diagnóstico do problema. Com o diagnóstico do problema, se ele for bem feito, a solução é quase que uma evolução natural, porque você sabe onde está tendo problema e a solução é resolver alguma coisa que atue naquele problema.

A não-liberação da cloroquina para todos os pacientes com COVID-19 foi preponderante para a sua saída do governo?
Isso foi uma coisa pública. O presidente (Jair Bolsonaro) tinha colocado na véspera que a cloroquina iria ser liberada. Qual é o problema disso? Eu sempre coloco isso, também. Eu não sou contra ou a favor a remédio algum. Não é que nem time de futebol onde se defende o seu remédio, não é isso. Na condição de quem está fazendo a gestão, se você tiver um dado científico que comprove que aquilo funciona, você usa.

Se você não tem, você não usa. Qual o problema hoje? - e aí a COVID-19 realçou isso muito. A qualidade dos estudos não é igual. Se o estudo é mal feito, pode ter alguma indicação de que alguma coisa funciona, quando na verdade em um estudo mais bem desenhado na metodologia, não funciona. Então não se pode assumir o resultado de um laboratório como alguma coisa que vai acontecer no cotidiano das pessoas. 

Na prática, o que acontece? Tem recursos. Tem a Organização Mundial de Saúde, o Instituto de Saúde dos Estados Unidos, instituições europeias, instituições que fazem revisão sistemática, análise, você tem referências mundiais que analisam isso. Hoje ainda há estudos acontecendo. Está para sair uma análise sobre ivermectina, mas enquanto não tenho um dado de que aquilo funciona, não posso usar, até porque eu não posso alocar meu recurso financeiro em alguma coisa que os dados sugerem que não funciona, pois estarei deixando de ter recursos para colocar em outra coisa. Nós, em um país que não é rico, precisamos desse recurso, que é realmente escasso. Se eu gasto em alguma coisa que não funciona, estou deixando de gastar em alguma coisa que funciona com certeza absoluta.

A cloroquina foi o problema do momento, mas uma coisa que eu sempre falei é que minha saída foi porque ali ficou muito claro que eu não teria autonomia para conduzir da forma que deveria achar que poderia conduzir. A essência era a falta de autonomia, que não está sendo legitimada como uma liderança. Ali ficou claro para mim que eu não conseguiria conduzir da forma que eu achava que era adequada. Por isso que eu saí.

O que é o coronavírus

Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.


transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.


A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.

Vídeo: Flexibilização do isolamento não é 'liberou geral'; saiba por quê

Principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gástricos
  • Diarreia
  • Em casos graves, as vítimas apresentam:
  • Pneumonia
  • Síndrome respiratória aguda severa
  • Insuficiência renal
  • Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avançam na identificação do comportamento do vírus 

Mitos e verdades sobre o vírus

Nas redes sociais, a propagação da COVID-19 espalhou também boatos sobre como o vírus Sars-CoV-2 é transmitido. E outras dúvidas foram surgindo: O álcool em gel é capaz de matar o vírus? O coronavírus é letal em um nível preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar várias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS não teria condições de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um médico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavírus.


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