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Estado de Minas PERDA

Corpo de médico e professor Hésio Cordeiro, um dos idealizadores do SUS, é cremado no Rio

Hésio de Albuquerque Cordeiro morreu no domingo (8), aos 78 anos, em função de uma doença degenerativa. Projeto de Montes Claros foi embrião do sistema universal de saúde


10/11/2020 18:37 - atualizado 11/11/2020 11:07

Hesio Cordeiro foi professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro por 25 anos(foto: Abrasco/Divulgação)
Hesio Cordeiro foi professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro por 25 anos (foto: Abrasco/Divulgação)

Foi cremado no Rio de Janeiro, nesta terça-feira (10), o corpo do médico sanitarista e professor Hésio de Albuquerque Cordeiro, que morreu no domingo (8), aos 78 anos, em função de uma doença degenerativa. Mineiro de Juiz de Fora, Hésio Cordeiro foi um dos responsáveis pela criação do Sistema Único de Saúde (SUS), que teve como embrião um projeto de atendimento à universal à saúde, implantado em Montes Claros, no Norte de Minas, na década de 1970.

Ao destacar importância da atuação de Hésio Cordeiro, o ex-ministro da Saúde José Saraiva Felipe, que trabalhou no “projeto-piloto” de Montes Claros, considerado como base para o SUS, enfatizou também a relevância do SUS no enfrentamento da pandemia do coronavírus no Brasil. Ele lembrou que se não existisse o sistema que Cordeiro ajudou a criar, o país teria uma “tragédia inimaginável” em meio à pandemia.

“A crise econômica agravada pela pandemia no Brasil, seja pela perda do emprego, seja pela incapacidade de famílias ou pessoas de arcarem com o pagamento de planos de saúde, jogou mais gente para o SUS. Imagine o Brasil, onde a maioria da população está empobrecendo, sem o direito à atenção à saúde? Imagino uma tragédia inimaginável”, afirmou Saraiva Felipe, que foi ministro da Saúde durante o segundo mandato do ex-presidente Lula.

Em 1971, Hésio Cordeiro liderou um pequeno grupo de médicos sanitaristas e progressistas, que fundou o Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Por meio do IMS, ele propôs a criação do sistema universal de saúde.

O ex-ministro Saraiva Felipe ressalta que “o que muita gente não sabe” é que, na prática, o projeto de atendimento à saúde implantado em Montes Claros, também na década de 1970, serviu de “ berço” para o SUS. Saraiva conta que Hésio Cordeiro esteve na cidade do Norte de  Minas, à época, oferecendo apoio à iniciativa.

Saraiva Felipe ressalta que o projeto pioneiro do município-polo do Norte do estado teve sua fase mais importante entre 1975 e 1980. Na ocasião, ele era gerente regional de Saúde de Montes Claros.

“Montes Claros  foi uma espécie de  experimentação das ideias de um  sistema de saúde que cobrisse toda a população, que atendesse todo mundo. Foi criada  (na cidade) uma estrutura grande, com centros de saúde, postos de saúde na zona rural e serviços simplificados de abastecimento de água. Hésio Cordeiro participava, assessorava, estimulava e criava um ambiente político de blindagem (para a iniciativa), que muita gente fazia oposição e chamava as pessoas que trabalhavam no projeto de 'esquerdistas'. Mas foi um projeto em que todos os sanitaristas importantes do país, dos mais jovens aos mais experientes, o tinham como referência, uma espécie de “meca da saúde pública."

O ex-ministro Jose Saraiva Felipe e os sanitaristas Sergio Arouca e Hesio Cordeiro, foto da década de 1970, época do projeto Montes Claros, que deu origem ao SUS(foto: Saraiva Felipe/Arquivo Pessoal)
O ex-ministro Jose Saraiva Felipe e os sanitaristas Sergio Arouca e Hesio Cordeiro, foto da década de 1970, época do projeto Montes Claros, que deu origem ao SUS (foto: Saraiva Felipe/Arquivo Pessoal)

Ele disse ainda: “todo mundo queria (conhecer mais o projeto) Montes Claros, porque (no município) eram formuladas e jogadas para o país inteiro as ideias de um sistema único de saúde”.

O ex-ministro recorda que, além de Hésio Cordeiro,  o projeto berço do SUS em Montes Claros contou com o apoio do médico sanitarista Sérgio Arouca (1941/2003) e envolveu outros profissionais como o médico Francisco (Chicão) de Assis Machado e odontólogo e especialista em saúde pública Eugênio Vilaça Mendes, que foi consultor da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) e do Banco Mundial.

Ele ressalta que o projeto pioneiro contou com o apoio da antiga Faculdade de Medicina do Norte de Minas (Famed), incorporada pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A iniciativa do atendimento universal à saúde do Norte de Minas ganhou o respaldo da Opas e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Foi formado em  Montes Claros um eixo muito importante para a divulgação da proposta que muita achava inexequível, de criar um sistema único de saúde no Brasil, que fosse um sistema que integrasse todos, que não discriminam as pessoas nem exigisse, como era antes, que as pessoas tivessem carteira assinada para serem atendidas no serviço de saúde”, afirmou Saraiva Felipe.

Ainda ao recordar o “papel fundamental” do professor Hésio Cordeiro na formulação da proposta do SUS, instituído pela Constituição Federal de 1988, Saraiva Felipe ressaltou que o SUS precisa de mais recursos.

“O SUS não é um problema sem solução, mas uma solução com problemas, como nos ensina Eugênio Vilaça, que é um importante teórico da saúde pública que morou e trabalhou em Montes Claros.O SUS é mais conhecido pelas suas deficiências do que pelos seus méritos. É o maior sistema público de transplantes do mundo e conseguiu evitar a disseminação do HIV/AIDS”, observou.

Ele lembra que o sistema envolve – nas três esferas de governo - a cobertura vacinal de crianças e idosos das Américas, fornece bilhões de atendimentos ambulatoriais e dezenas de milhões de internações anuais. “O SUS desde a sua origem padece de sub-financiamento e é grande a necessidade de aprimorar a qualidade do gasto, evitando e punindo desvios. Com a pandemia do Coronavírus, o SUS vem recebendo o reconhecimento da sua importância no país”, avalia o ex-ministro da Saúde.


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