O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o secretário de Pesca, Jorge Seif Júnior, além do presidente do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), anunciaram ontem a liberação de pesca da sardinha em Fernando de Noronha. Foi assinado um "termo de compromisso" com a normatização e regras autorizando a atividade. A decisão, porém, atropela uma decisão técnica do próprio ICMBio contrária à prática.
A reportagem teve acesso a um documento técnico do órgão, elaborado em outubro de 2016, que analisou profundamente os impactos para liberar a captura de sardinha dentro do Parque Nacional de Fernando de Noronha. O local é uma unidade de conservação administrada pelo ICMBio, daí o fato de ter uma série de regras de controle e respeito ao ambiente.
Neste estudo, a área técnica do ICMBio é objetiva ao se posicionar sobre a pesca de sardinha na ilha. "Não há motivação nos contextos de conservação da biodiversidade, econômico ou histórico de tradicionalidade que justifiquem a abertura da atividade."
O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade do Nordeste, ligado ao ICMBio, é taxativo em sua conclusão. "A manifestação do Cepene é contrária a liberação da pesca no Parque Nacional de Fernando de Noronha."
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Demanda dos pescadores?
Nas redes sociais, o secretário da Pesca, Jorge Seif Júnior, declarou que se trata de "uma demanda de décadas dos pescadores". Disse ainda que a decisão foi tomada "após estudos de impacto, relatórios técnicos, observação do plano de manejo e trabalho de equipes do ICMBio com a SAP (Secretaria de Aquicultura e Pesca)". "Assinamos hoje o termo de compromisso com a normatização e regras, autorizando essa atividade tão importante para os pescadores nativos de Noronha."
Em seu documento técnico, o ICMBio afirma que "a frota de barcos de pesca aumentou de forma descontrolada e irregular em Fernando de Noronha" e é permitida somente a permuta de embarcações, e não a entrada de outros barcos. "A população de Fernando de Noronha também cresceu descontroladamente nos últimos anos. A pesca já não era sustentável e in suficiente para abastecer a população até a década de 1990. Com o aumento da população da ilha, essa situação se agravou ainda mais", afirmam os técnicos.
O relatório mostra que, assim como ocorre nas demais pequenas ilhas oceânicas, a ocupação humana não pode ser sustentada por recursos provenientes apenas do local. "Nessas ilhas os recursos naturais são extremamente limitados, sendo essencial a importação de recursos do continente para garantir a sobrevivência da população humana nestes locais."
A reportagem procurou o ministro Ricardo Salles, o secretário Jorge Seif Júnior e o ICMBio para comentar o parecer técnico do Instituto Chico Mendes. Não houve resposta até as 19h de sexta-feira.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.