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Estado de Minas INTERIORIZAÇÃO

COVID-19: 7,8 milhões de brasileiros estão a 4 horas do atendimento adequado

Análise do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde, da Fiocruz, aponta que a interiorização da doença está cada vez mais rápida


postado em 21/05/2020 16:31 / atualizado em 21/05/2020 18:12

Em 16 de maio, 60% dos 5.570 municípios brasileiros já tinham registrado casos da doença e 21% contavam ao menos um óbito(foto: Reprodução/ Internet)
Em 16 de maio, 60% dos 5.570 municípios brasileiros já tinham registrado casos da doença e 21% contavam ao menos um óbito (foto: Reprodução/ Internet)
Análises feitas por pesquisadores do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), concluíram que mais de 7,8 milhões de brasileiros estão a pelo menos quatro horas de um município que ofereça atendimento médico de alta complexidade no tratamento do novo coronavírus. Segundo o estudo, mais de 20% da população dos estados do Amazonas (1,3 milhão de habitantes), Pará (2,3 milhões) e Mato Grosso (888 mil) moram em áreas que oferecem poucos recursos para assistência nos casos graves da doença.

A observação do Icict constatou a rapidez da interiorização da COVID-19. Em apenas uma semana, de 9 a 16 de maio, nos municípios com população entre 20 e 50 mil habitantes, a cada dia seis cidades registravam pela primeira vez uma vítima fatal da doença. Entre municípios menores, com população de 10 a 20 mil habitantes, na mesma semana cinco cidades a cada dia entravam na lista de municípios com óbitos por coronavírus.

Na mesma semana, em média, nas cidades com menos de 50 mil habitantes, a cada dia 15 delas apresentavam pela primeira vez casos de COVID-19. O primeiro caso de infecção foi registrado em 227 municípios com população menor que 10 mil habitantes; em 197 com entre 10 e 20 mil habitantes; e em 112 com entre 20 e 50 mil habitantes. Até 16 de maio, 60% dos municípios brasileiros registravam casos da doença e 21%, óbitos. Nos municípios com população acima de 50 mil habitantes, 98% apresentavam casos e 58%, óbitos.

De acordo com o médico epidemiologista do Icict, Diego Xavier, o órgão tem tentado apontar a relevância da interiorização do coronavírus nos estados brasileiros, pois ela implica, diretamente, na rede de serviço e atenção em saúde. 

“Nós temos dois grandes problemas com a interiorização da doença. O primeiro é a dificuldade de acesso aos grandes pólos de atendimentos. Já o segundo, é que os municípios que sofrem com esse processo não possuem uma rede com estrutura de assistência em saúde especializada. Com isso, os pequenos municípios precisam enviar os pacientes infectados para cidades maiores, que possuem os meios de tratamento adequados”, explicou.

Para ele, ainda assim, os pacientes de municípios menores enfrentam uma dificuldade extra, já que “a doença chegou primeiro às grandes cidades e, com isso, os hospitais vão atender primeiro as demandas locais, para posteriormente receber demandas externas”.

“Se não conseguirmos controlar a doença nos grandes centros é provável que, quando ela chegar aos municípios do interior, ele não tenha para onde enviar os pacientes”, alertou.
 
A análise da equipe do Icict/Fiocruz cruzou as informações de hospitalização por problemas respiratórios do banco de dados do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), do Ministério da Saúde, com os deslocamentos populacionais e as distâncias potencialmente percorridas pela população, considerando as regiões de influência das cidades (IBGE, 2018) e as regiões de saúde definidas pelas Secretarias Estaduais de Saúde.

Medidas de contenção

Segundo a nota técnica do sistema MonitoraCovid-19, da Fiocruz, a assistência com Unidade de Terapia Intensiva (UTI), equipamentos e pessoas especializadas para atenderem em casos de doenças respiratórias agudas graves, em cidades que possuem o fluxo de deslocamento demorado até os pacientes conseguirem serviços de saúde, está comprometida na maioria dessas regiões. Além delas, existem outras com suporte de auxílio precário, como o caso de municípios no interior do Nordeste, norte de Minas Gerais e na região Sul do Piauí e do Maranhão.

“Quando falamos em achatar a curva para proteger o sistema de saúde, cometemos um erro. O grande equívoco na estratégia nacional de enfrentamento da COVID-19 é que não falamos em qual rede de sistema de saúde é esse que pretendemos atingir. Um exemplo é, se Belo Horizonte tomar uma atitude, mas as cidades da região, que possuem a mesma rede de saúde,, não seguirem as mesmas medidas, a capital sofrerá um fluxo de pacientes do interior que estarão contaminados”, analisou o epidemiologista Diego Xavier.

“É importante que as pessoas saibam que o sistema de saúde municipal não é específico do município, ele faz parte de uma rede de atendimento. Então, as medidas que forem tomadas de isolamento ou relaxamento têm que ser consideradas na rede de atenção em saúde. Temos que proteger o sistema de saúde, que funciona em rede, pois só assim vamos conseguir fazer algum tipo de enfrentamento à doença”, ressaltou. 

*Estagiário sob supervisão da editora Liliane Corrêa

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