Com presença de grupos indígenas brasileiros, a missa deste domingo na Basílica de São Pedro, no Vaticano, foi especial: o papa Francisco abriu oficialmente o Sínodo dos Bispos Sobre a Amazônia. A cerimônia começou pontualmente às 10h deste domingo, 6, no horário de Roma.
"O fogo que destrói, como aquele que devastou a Amazônia, não é o do Evangelho", afirmou o papa. Em sua homilia, o papa acolheu os bispos sinodais e falou sobre a importância de "caminhar juntos", citando o apóstolo Paulo. "Somos bispos porque recebemos um dom de Deus. Recebemos um dom para sermos dons. Um dom não se compra, não se troca e não se vende. Recebe-se e se dá de presente", disse, falando sobre a importância de que os religiosos sejam pastores, e não funcionários.
Dos cerca de 250 convocados pelo papa para participar do Sínodo, 58 são brasileiros - é a maior delegação. O relator-geral do Sínodo é o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). O encontro, que ocorre deste domingo, 6, até o dia 27, deve tratar de temas sociais, ambientais e religiosos dos nove países que têm territórios na Amazônia. Além do Brasil, são Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Venezuela e Suriname.
Papa Francisco também lembrou daqueles que foram mortos em lutas e missões na região amazônica. "Querido cardeal Hummes", dirigiu-se ao brasileiro.
"Muitos irmãos e irmãs da Amazonia carregam cruzes pesadas e aguardam pela libertação do Evangelho", pontuou Francisco.
Entre os participantes estão religiosos como bispos, padres e freiras, mas também leigos convidados - cientistas e pessoas ligadas a Organização das Nações Unidas (ONU). A expectativa é grande sobre os debates, principalmente por conta da crise climática contemporânea e de recentes declarações do presidente brasileiro Jair Bolsonaro sobre problemas ambientais na Amazônia, que repercutiram mal no exterior.
Um dos cientistas que participam do evento é o climatologista brasileiro Carlos Nobre, que integrou a equipe que venceu o Nobel da Paz em 2007 e é um dos mais renomados especialistas do mundo em sua área. Nobre é do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Em conversa com a reportagem, ele avaliou que o Sínodo mostra que a Amazônia "tornou-se um assunto de preocupação mundial". "Ainda que não tenha sido planejado para tanto, o Sínodo acontece num momento no qual os desmatamentos e queimadas vêm aumentando perigosamente e a discussão vem recebendo grande atenção", disse ele ao Estado.
Em conversa com o Estado, o padre jesuíta norte-americano James Martin, consultor do Vaticano, definiu o Sínodo como "um tempo para a Igreja se reunir e meditar sobre os muitos desafios que enfrenta, não apenas em termos de meio ambiente". "Mas também como ajudar a Igreja a alcançar pessoas em lugares que muitas vezes não são servidos por padres e paróquias", comentou ele. "E a maneira como essa região responde a essas perguntas ajudará outras áreas a enfrentar seus próprios problemas através desse importantes modo de discernimento."
"O papa Francisco convocou um Sínodo Sobre a Amazônia porque essa região merece um Sínodo", afirmou ele.
Segundo o Instrumento de Trabalho, o documento divulgado anteriormente para nortear as discussões do Sínodo, os temas que devem ser debatidos vão desde a situação das comunidades indígenas e ribeirinhas até a exploração internacional dos recursos naturais da região. Os bispos também vão discutir a violência, o narcotráfico e a exploração sexual que vitimiza os povos locais, as práticas de extrativismo ilegal, o desmatamento, a poluição dos rios e as ameaças à biodiversidade, a crise climática global, os danos possivelmente irreversíveis da floresta e o posicionamento de governos quanto a projetos econômicos prejudiciais à natureza..