A gestão Jair Bolsonaro anunciou na segunda-feira, 2, o corte de mais 5.613 bolsas de pós-graduação que seriam ofertadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência federal de fomento à pesquisa, a partir de setembro. O congelamento soma-se a outras 6.198 bolsas que haviam sido bloqueadas no 1.º semestre. A medida afeta todas as bolsas que seriam ofertadas até o fim deste ano - ou seja, se não houver desbloqueio de recursos, nenhum novo auxílio será concedido este ano. O governo federal diz que a decisão é justificada pelo cenário fiscal adverso.
O jornal O Estado de S. Paulo ouviu Gabriela Pinheiro, de 25 anos, jovem pesquisadora da Universidade Federal do Rio (UFRJ), a maior federal do País. Recém-aprovada no doutorado, ela foi surpreendida com o anúncio do congelamento do auxílio de R$ 2,2 mil que havia conquistado.
"Sem bolsa, não dá para continuar", diz ela, que estuda o potencial do vírus zika no tratamento de tumores e já havia perdido a chance de ter uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, que também tem sofrido com cortes de verbas em 2019. "Está cada vez mais difícil fazer pesquisa no Brasil."
Leia a seguir o depoimento da pesquisadora Gabriela Pinheiro à reportagem:
"Sou biomédica formada e aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfológicas do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, uma pós-graduação que tem conceito 7, que é a nota máxima de avaliação da Capes.
Meu projeto no doutorado era estudar o potencial do vírus zika no tratamento do tumor glioblastoma (tipo de tumor cerebral).
No doutorado, observamos que o vírus seria um potente aliado no tratamento porque é capaz de infectar as células tumorais e matá-las sem atingir as células saudáveis. O nosso objetivo era realizar exames in vitro e in vivo para descobrir os mecanismos pelos quais o vírus é capaz de infectar essas células e como as mata.
Entreguei na segunda-feira os documentos necessários para a bolsa da capes e na terça descobri que ela foi cancelada. No Brasil, para ser pesquisador, precisamos de bolsa. Mas com esse congelamento, sem a bolsa (que é de R$ 2,2 mil) é insustentável se manter na pesquisa. Conto com esse dinheiro, que é minha única fonte de renda. E quando a gente entra na pós, assina um termo de dedicação exclusiva.
Fui pega de surpresa.
Agora não sei o que fazer. Sem bolsa, não dá pra continuar. E o nosso projeto é de extrema importância para a saúde pública. Está cada vez mais difícil fazer pesquisa no Brasil.".