Um dos maiores especialistas em Direito Ambiental do País, o advogado Paulo Affonso Leme Machado, ex-promotor de Justiça no Estado de São Paulo, concedeu entrevista sobre os desafios e fragilidades da legislação ambiental brasileira em relação à mineração.
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defende uma reforma do processo de licenciamento. Ele diz que lei é "complexa, irracional e não funciona" e sugere simplificar a legislação para os projetos de baixo impacto ambiental e centrar esforços nas obras mais complexas. O que o senhor achar disso?
Uma questão que se questiona é o tempo de duração do processo. Concordo, é demorado. Tem de ter prazo mais estrito. Mas dizer que é irracional, não é. Nem excessivamente complexo. Agora falar em casos mais simples
Eu sou contra essa diferenciação.
Desde o desastre de Mariana, ambientalistas, cientistas e promotores alertam para o risco de uma "fábrica de Marianas" se o licenciamento fosse afrouxado. Brumadinho pode aumentar a pressão sobre esse debate?
Sim, acredito que deve aumentar a necessidade de um licenciamento ambiental mais forte, não mais fraco. A questão minerária, e principalmente mineral em Minas, vem mostrando que o licenciamento tem sido muito frouxo e com domínio inegável negável dos mineradores. E o resultado é que as regras ficam afrouxadas.
O sr. vê falhas na legislação específica da mineração?
Há um grande erro, uma chaga, na Lei de Segurança de Barragens, que é o tanto de poder que dá ao empreendedor de se autofiscalizar.
O que é preciso para evitar que esses casos voltem a se repetir?
Por um lado, para que o licenciamento ambiental seja eficiente, é preciso que as pessoas que licenciam tenham independência funcional, de modo que elas não se submetam a pressões políticas e econômicas. Por outro, como cidadão e habitante deste planeta, espero que o MP e o Judiciário possam cumprir seu dever e ir até o fim. Se pararmos no meio do caminho, se a identificação das condutas não ficarem claras e os culpados não forem punidos, tudo recomeçará.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo..