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Estado de Minas

Mãe é proibida de assistir aulas acompanhada da filha e professor ameaça levá-la para Conselho Tutelar

Estudante, que não tinha com quem deixar a filha, foi criticada pelo professor, que alegou que presença de criança atrapalha as aulas


postado em 08/03/2018 12:02 / atualizado em 08/03/2018 15:13

(foto: Reprodução/Facebook)
(foto: Reprodução/Facebook)
Em sala, além dos estudantes que cursam Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a aula de Introdução à Sociologia, ministrada pelo professor e pós-doutor, Alípio Sousa Filho, nesta terça-feira (6), tinha também a presença da filha de 5 anos de Waleska Maria lopes, aluna do curso. 

A presença da menina, que, de acordo com a mãe, ''é muito tranquila, não faz barulho, só desenha a aula inteira'', causou um alvoroço. 

O professor considerou que deveria proibir Waleska de assistir às aulas porque ela estava acompanhada da filha, uma vez que considera a presença da menina ''prejudicial às aulas'' e chegou a ameaçá-la, afirmando que levaria o caso ao Conselho Tutelar. 

A estudante, que trabalha de manhã e de tarde como atendente de telemarketing, alega não ter com quem deixar sua filha, que frequenta uma escola à tarde, na parte da noite, quando vai à universidade. 

Waleska, que é mãe solteira e carioca, entrou na UFRN pelo ENEM, em 2017. Mudou-se para Natal para que pudesse frequentar a universidade e, hoje, divide com a filha um apartamento com outras pessoas na cidade. ''Me senti muito mal. Minha filha perguntou se não podia mais assistir às minhas aulas. Se era por causa dela. É uma grande humilhação. A única família dela sou eu. Ela só tem a mim. Foi terrível'', afirmou em entrevista ao G1. 

O professor Alípio FIlho afirma não ter expulsado a aluna de sala, mas admite que a proibiu de voltar às aulas com sua filha.
 

Áudios

 
(foto: Reprodução/Wikipedia)
(foto: Reprodução/Wikipedia)
Revoltados com a atitude do professor, alunos gravaram depoimentos que Alípio Filho deu após Waleska se retirar da sala. O conteúdo circulou em grupos de WhatsApp e, sem muita demora, alcançou todas as redes sociais. (ouça ao fim desta reportagem)

Nos depoimentos distribuídos pelos alunos, que somam cerca de 5 minutos, o professor aparece criticando a aluna e se posicionando sobre sua decisão. ''A palavra aqui é estudar, discutir comigo as ideias, aprender comigo. Vocês estão em uma universidade pública, não pagam um centavo para estar aqui. Vocês têm professores com salários caríssimos, meu salário é de R$ 20 mil. Um professor que entra agora ganha R$ 10 mil. Ar condicionado, WIFI, luz, restaurante, biblioteca. Vocês são caros. Ai você vem desenhar na universidade, na sala de aula, e achar que, como aluno, pode impor o modo de ser das coisas? Na sala de outro! Na minha não'', afirmou. 

''Ela (que) encontre uma rede de solidariedade para cuidar da criança. Não consegue essa rede de solidariedade? Repense sua vida. Não tem que estar fazendo Ciências Sociais, não tem que estar estudando na universidade. Você só faz isso se tiver condições. Agora não vai impor à instituição coisas que não são assimiladas pela instituição. 'Eu sou pobre, não tenho'. Problema seu, a universidade não tem problema com isso, se vire'', completou o professor. 

Em depoimento ao G1, Alípio Filho declarou que ''esse áudio é maravilhoso'' e que ''agradece'' que ele esteja sendo divulgado.

 
Polêmica

 
A atitude do professor Alípio Filho e os depoimentos divulgados pelos alunos, geraram um clima de conflito na UFPN. Diversos alunos criticaram o professor nas redes sociais, a hashtag ''#ProfessorIntoleranteNaUFRN'' foi criada e o 'perfil' do acadêmico na Wikipedia foi modificado momentaneamente para que nele constasse a polêmica. 
O adendo não está mais disponível(foto: Reprodução/Wikipedia)
O adendo não está mais disponível (foto: Reprodução/Wikipedia)

O furor nas redes sociais fez com que a também pós-doutora e professora de Ciências Sociais ma UFPR, Michelle Ferret, declarasse publicamente repúdio à atitude de Alípio Filho. ''Não é com diplomas, nem conceitos do MEC, nem artigos e livros que vamos nos educar, mas sim com coragem de olhar o outro e ter o mínimo de respeito e cuidado de sentir que é uma vida em construção. É muito triste ouvir o áudio e ler o relato porque consigo sentir como mãe solo de dois filhos, o que ela sentiu ao ser HUMILHADA na frente de todos da sua turma por levar sua filha. E o constrangimento maior pela criança estar ouvindo tudo'', argumentou.

Waleska declarou que registrará um boletim de ocorrência, alegando agressão moral e constrangimento público e entrará com um processo administrativo dentro da UFRN. O professor é o único docente que ministra a disciplina 'Introdução à Sociologia' na universidade.
 
 
 
*Estagiário sob supervisão do editor Benny Cohen 
 

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