São Paulo, 18 - A aprovação da Base Nacional Comum Curricular, na última sexta-feira, pode ser uma oportunidade para que, finalmente, o Brasil invista na formação dos seus professores. É o que pensa o pesquisador da Universidade de Stanford, David Plank, que estuda o documento brasileiro em comparação ao Common Core, norma semelhante que está em vigor nos Estados Unidos desde 2010.
Mas, para o especialista, a Base só vai chegar às salas de aula se houver apoio financeiro do governo federal para os programas de treinamento dos professores, principalmente para os Estados e municípios mais pobres. Aprovar a Base é uma grande vitória para o Brasil, dedicou-se muito tempo, foram muitas discussões para se chegar a isso, mas agora é que o trabalho duro começa, diz.
Plank é americano, já foi professor da Universidade Federal da Bahia e atualmente dirige o Lemann Center, centro financiado pela Fundação Lemann em Stanford.
Por que é importante um país ter uma Base Curricular?
Eu digo que a Base simultaneamente traça objetivos e é uma alavanca. Os novos padrões de aprendizagem dão um rumo para o sistema educacional, especificam o que os estudantes precisam aprender em cada nível de ensino. E dão um direcionamento do que os professores têm que fazer, do que as escolas têm que fazer. Mas também exigem que o sistema faça outras mudanças, como redesenhar o sistema de avaliação. Porque você precisa testar os estudantes de acordo com os novos objetivos. Os Estados e municípios também precisam desenvolver currículos que vão ajudar seus professores a entenderem os novos padrões.
Qual o momento certo para se começar a avaliar os estudantes conforme a Base?
Não existe um momento mágico. Avaliações não te dizem nada interessante a não ser que elas estejam alinhadas ao que está sendo ensinado pelos professores. Senão, você tem um falso resultado do que os estudantes estão fazendo. Em Nova York, os professores estavam ensinando de acordo com os padrões antigos porque não sabiam quais eram os novos, mas as avaliações estavam cobrando os novos, que os estudantes nunca tinham visto e os professores nunca tinham ensinado (a polêmica descontentou pais e professores e fez com que NY desistisse de seguir o Common Core). Realmente, foi muito cedo.
Os professores são ponto principal da implementação?
Com certeza. O papel central tem que ser feito pelos professores. Eles precisam se sentir consultados, incluídos. Eles precisam entender que esses são os padrões que eles acreditam e que, assim, vão fazer um trabalho melhor e os estudantes vão aprender mais. Mas eles sozinhos não podem fazer as mudanças que a Base prevê. Eles precisam de muita ajuda.
Para isso, é preciso tempo e dinheiro.
Sim, tudo isso é muito caro. Se o governo federal quiser que a Base faça diferença, ele vai ter que dar ajuda financeira para Estados e municípios para financiar os programas de treinamento principalmente dos professores que estão nas salas de aula. A Base em si não significa muito. É uma coisa legal, boa, mas se você não investe os recursos necessários para implementação, ela pode não ter resultado nenhum. Agora é o momento de dar tempo e dinheiro para que os professores aprendam os novos padrões.
Isso pode levar a grandes avanços na educação brasileira.
Há críticos da Base que dizem que ela vai favorecer empresas que produzem livros didáticos, que vão vender para o governo esse material novo.
Uma implementação bem-sucedida da Base exige novos livros didáticos, novos materiais, guias de estudo. A Base sozinha não tem nenhum sentido sem essas coisas. A questão aqui é como vamos produzir essas coisas.
O Common Core tem apenas as áreas de inglês e matemática. Aqui, a Base tem todas as áreas e até ensino religioso, que causou muita polêmica. Qual o melhor modelo?
Nos Estados Unidos, foi uma decisão estratégica focar em inglês e matemática porque são as duas disciplinas vistas como fundamentais para as outras. Você precisa ler para entender história e geografia e precisa de matemática para ciências. No Brasil, você está vendo a Base com ensino religioso, história, outras disciplinas que podem ter mais discordâncias.
O Estado de S. Paulo.
(Renata Cafardo).