Cotia, 01 - A doméstica Maria de Fátima Oliveira, de 61 anos, tem os olhos inchados. Desde a noite de domingo, 31, chora a intervalos curtos. É que o sobrado onde mora em Cotia, na Grande São Paulo, foi durante nove dias o cativeiro de Aparecida Schunk Flosi Palmeira, 67 anos, sogra do chefe da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, de 85. "Aconteceu na ponta do nosso nariz, e a gente não viu nada."
O sobrado fica na Rua São Serafim, uma ladeira de casas grandes e simples. Proprietária do sobrado há 16 anos, Maria de Fátima e o marido, Leandro Furtado, de 64, dividiram o imóvel em cinco partes, com três portões independentes. O casal aluga quatro delas e mora nos fundos da propriedade.
Em agosto, faria dois meses que a área de cerca 37 m², dividida em sala, quarto, cozinha e um banheiro minúsculo, que mal cabe mesmo um sanitário e um chuveiro, havia sido alugada a Vitor Oliveira Amorim, um dos acusados do sequestro. Ele foi detido no domingo, por volta das 18h40, pela Divisão Antissequestro (DAS), da Polícia Civil.
Para acessar o local, que fica no térreo, era preciso abrir o portão do meio. O quarto, onde Aparecida ficou, não tem janela e, de fora, só é possível ver um lençol florido.
Os vizinhos não viam motivos de desconfiança - mesmo que Vitor tenha sido visto com mais frequência de uma semana para cá. O rapaz era discreto e educado. "Ele disse que vinha morar com a namorada. Dava sempre 'bom dia', parecia um menino bom", diz a proprietária.
Pelo espaço, o casal recebia R$ 430. A desconfiança de todos era de que o local fosse usado para encontros amorosos.
"A gente nunca escutou nada. Nem choro, nem grito. Nunca ouvimos barulhos de chuveiro, nem de panela", diz a operadora de máquina Rosimeire Nascimento, de 47 anos, que mora há mais de dois anos parede com parede com o cativeiro.
Vitor, dizem os vizinhos, chegava de madrugada com sacolas, que sempre ia buscar de carro - um Polo Preto. Também já foi visto lavando o veículo na garagem. De manhã, deixava o lixo na rua e ia embora.
O estudante Leandro Pires, de 19 anos, diz ter visto o momento em que os policiais civis estouraram o cativeiro. "Invadiram gritando 'Perdeu, perdeu!'", conta. "Eu saí para ver o que era, um policial perguntou se eu era o proprietário.
Aparecida havia sido apanhada em casa pelos bandidos, em 22 de julho, em Interlagos, na zona sul de São Paulo. Dois sequestradores foram presos. Não houve pagamento de resgate..