A cruel realidade dos animais em extinção

Onça-pintada abatida a tiros repete a história da sua mãe, atacada por caçadores

Juma foi morta com um tiro nas dependências do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs) depois de ser exibida na passagem da tocha olímpica em Manaus (AM), na segunda-feira

Alessandra Mello Juliana Cipriani
- Foto: Ivo Lima/ME

A história da onça Juma – um macho, apesar do nome –, morta com um tiro nas dependências do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs) depois de ser exibida na passagem da tocha olímpica em Manaus (AM), na segunda-feira, não é muito diferente da de sua mãe nem de outros animais de sua espécie, ameaçada de extinção em função da caça tanto predatória como retaliatória. Juma estava há sete anos sob os cuidados do 1º Batalhão de Infantaria da Selva (1º BIS), localizado na capital amazonense, depois que sua mãe foi morta a tiros por caçadores. Na época, ainda pequeno e com ferimentos, o animal não tinha condições de sobreviver sozinho e foi adotado pelos tratadores.

Desde então, vivia em cativeiro e era uma espécie de mascote do batalhão e do Cigs. Já havia sido exibida na televisão pelos militares, em um programa de televisão de um canal inglês e sempre participava, com outras onças, de desfiles e solenidades. Na Amazônia, é comum a manutenção nas dependências do Exército de onças e outros animais silvestres feridos e resgatados de cativeiros pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Juma, de acordo com informações do Comando Militar da Amazônia (CMA), era um animal de comportamento dócil, aparentava tranquilidade durante todo o evento olímpico e chegou a tirar uma foto com um dos condutores da tocha. Para o comando, o que aconteceu com Juma foi uma “fatalidade”. Em nota, o CMA disse que uma equipe de militares, formada por veterinários especializados no trato com o animal, foi ao seu encontro para resgatá-la depois que ela fugiu quando os tratadores se preparavam para embarcá-la de volta ao batalhão.

“O procedimento de captura foi realizado com disparo de tranquilizantes. O animal, mesmo atingido, deslocou-se na direção de um militar que estava no local.
Como procedimento de segurança, visando a proteger a integridade física do militar e da equipe de tratadores, foi realizado um tiro de pistola no animal, que veio a falecer”, diz a nota. Um procedimento administrativo foi aberto para apurar o ocorrido.

A onça Juma foi escalada, ao lado de Simba, da mesma espécie, para ser apresentada na segunda-feira ao público durante a cerimônia de revezamento da tocha. Ela foi exibida acorrentada, perto do fogo olímpico. Sua morte será investigada também pela Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos dos Animais da Câmara dos Deputados. Em resposta a pedido do presidente da frente, deputado Ricardo Izar (PP-SP), o Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas informou que vai instaurar procedimento administrativo para apurar o caso. O CMA também foi acionado oficialmente pela frente.

“A onça estava sob a tutoria do Exército e tem que ser apurado quem foi o imbecil que teve a brilhante ideia de colocar um animal silvestre para participar de um evento com esse público, sabendo que uma espécie dessa pode ter qualquer reação de defesa”, afirma Izar. “Vamos até o fim, temos que apurar e punir o responsável. O Brasil é o país que mais mata animais silvestres no mundo. Só por atropelamento 475 milhões deles morrem nas rodovias por ano”, acrescentou Izar. O presidente da frente dos animais lembra que a punição por crime ambiental pode levar o responsável a até três anos de detenção. A punição, no entanto, ainda é considerada branda.

REPERCUSSÃO MUNDIAL
A morte da onça Juma causou comoção no mundo inteiro e levou o Brasil a ganhar novamente o noticiário internacional, de forma negativa. O erro de levar o animal silvestre para participar do evento foi admitido pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio-2016. A trapalhada foi destaque entre os maiores jornais do mundo.
O americano The New York Times destaca o fato de a participação de animais em eventos ser ilegal, segundo o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), e diz que a morte está sendo investigada. A publicação lembra, ainda, que um jaguar amarelo apelidado de Ginga é a mascote da equipe olímpica brasileira.

O jornal Times of Oman, do Oriente Médio, diz que grupos de proteção animal questionaram a participação da onça-pintada, que é uma espécie quase ameaçada de extinção. O veículo lembra que as onças foram exterminadas no Uruguai e em El Salvador. O espanhol El país publicou matéria com o título “A cruel morte da onça Juma que envergonhou o comitê olímpico”. Na Inglaterra, o The Guardian, a BBC, além de Daily Mail, Independent, Metro e Sky News, noticiaram a morte da onça, destacada como uma mascote do Brasil. O fato de ela ter sido abatida a tiros foi notícia em outros meios de comunicação norte-americanos, como a Time, CNN, Chigago Tribune e The Wall Street Journal.

Entenda o caso

A tocha olímpica chegou à Amazônia na segunda-feira passada, 49 dias depois de iniciar seu trajeto.

Em Manaus, um dos locais pelos quais o fogo olímpico passou foi o Centro de Instrução de Guerra na Selva. Lá, duas onças mascotes do Exército foram exibidas, Juma (foto) e Simba.

O problema ocorreu depois que o evento havia terminado no local. Segundo o Comando Militar da Amazônia, Juma escapou do zoológico da instituição. O animal foi atingido por um tranquilizante, mas acabou abatida com tiro de pistola quando se deslocou na direção de um militar.

A onça Juma tinha cerca de 15 anos e foi resgatada com ferimentos após sua mãe ter sido morta. Estava sob cuidado do Exército da Amazônia, que costuma adotar animais encontrados em cativeiro.

Segundo o site Amazônia Real, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas só havia autorizado a participação de Simba no evento.

Em entrevista ao site da BBC Brasil, o biólogo João Paulo Castro criticou o uso da onça no evento da tocha olímpica.
“Muitas vezes a onça já vive numa situação precária e estressante no cativeiro, o que é agravado num cenário de agitação.”

O uso da onça para uma exibição pública aberta como o revezamento da tocha olímpica também gerou revolta na internet, já que o animal não deveria ter sido exposto a uma situação de estresse desse tipo.

O caso da onça reacende a questão do contato e do cuidado do ser humano com animais selvagens. Em maio, um gorila foi morto após uma criança cair dentro da jaula de um zoológico em Ohio, Estados Unidos.
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