Brasil garante que zika "está sob controle"

Ministro da Saúde, Marcelo Castro afirma que não faltarão recursos para combate do vetor nem para vacina. Na semana que vem técnicos dos EUA e Brasil iniciam trabalho conjunto

Maria Clara Prates
Soldados do Exército já estão nas ruas de várias cidades do Brasil, como Salvador (BA) e São Paulo (SP) - Foto: NELSON ALMEIDA/AFP

Depois que a presidente Dilma Rousseff assumiu pessoalmente a adoção de medidas para combate ao mosquito Aedes aegypit – vetor de transmissão do zika vírus, dengue e chicungunha –, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, afirmou ontem que a situação das doenças no Brasil “está sob controle” e que, “apesar das dificuldades econômicas” da administração federal, não faltará dinheiro para matar mosquitos e pesquisar uma vacina. A declaração reverte o tom das últimas respostas do governo sobre a epidemia. No dia 22, Castro causou polêmica ao afirmar que o país estava “perdendo feio” a batalha para o mosquito Aedes aegypti. Uma semana depois, a presidente Dilma Rousseff afirmou que se tratava de uma “constatação da realidade” e que a luta seria perdida enquanto o inseto continuasse se reproduzindo.

Assim como o auxili ar, a presidente demonstrou, agora, confiança, nas medidas que o país está adotando tanto para o desenvolvimento de uma vacina, em parceria, com os EUA, como para o combate ao vetor de transmissão. “Estamos em contato com os Estados Unidos para o desenvolvimento de uma vacina contra o zika vírus. Três instituições do Brasil estão fazendo pesquisas para fazer essa vacina”, disse ontem, durante entrega de unidades do Minha casa, minha vida em Indaiatuba (SP). “Há também o empenho do governo federal com Estados e municípios para combater o mosquito que transmite essa doença.”

À noite, a presidente Dilma usou espaço em cadeia nacional de televisão para pedir à população ajuda no combate à proliferação do mosquito. “Formemos um grande exército de paz e de saúde, com a participação dos 204 milhões de brasileiros e brasileiras.
Vamos provar, mais uma vez, que o Brasil é forte, tem um povo consciente, e não será derrotado por um mosquito e pelo vírus que ele carrega. Mais que nunca, o Brasil precisa da nossa união”, pediu. Ela disse que o governo está mobilizando seus recursos, mas lembrou que o Aedes aegypti pode estar na casa do vizinho ou em qualquer residência. “Enquanto não desenvolvermos uma vacina contra o vírus zika, precisamos combater o mosquito”, afirmou. Dilma se dirigiu especialmente às mães e mulheres grávidas e garantiu que o governo fará de tudo para protegê-las e dar assistência às crianças com microcefalia.

Em Montevidéu, Marcelo Castro participou de uma reunião emergencial com outros ministros da Saúde de países latino-americanos. “A situação está sob controle. Estamos fazendo todas as ações necessárias e indispensáveis, mas um esforço sempre maior é necessário ser feito”, disse. Segundo ele, há 4,7 mil casos suspeitos e 400 confirmações de microcefalia, casos de bebês que nasceram com crânios menores que o normal e problemas neurológicos. Ontem, a Secretaria de Saúde de Pernmbuco confirmou 12 casos de microcefalia relacionados ao vírus zika no estado

Visita
Castro disse que no dia 11 chegam ao Brasil técnicos americanos para trabalhar em uma vacina contra o vírus. A parceria foi negociada em telefonemas entre a presidente Dilma e o americano Barack Obama, e do próprio Castro com a secretária de Saúde dos EUA. Castro admitiu que o controle de fronteiras tem se mostrado pouco eficiente em casos de surtos. “O vírus de certa forma já se espalhou por todo o continente. O mais importante são ações conjugadas, efetivas, compartilhamento de experiências e ações conjuntas no hemisfério para combater o mosquito.
É a arma de que dispomos no momento.”

Na semana passada, a OMS alertou que a enfermidade chegaria a toda a América Latina, exceto ao Chile e Canadá, onde não há mosquito Aedes aegypti. A movimentação de viajantes por países em que o zika se tornou uma ameaça sanitária, como Brasil e Colômbia, é a principal preocupação de países em que os casos ainda são isolados. “É provável que turistas que visitaram o Brasil regressem com a doença. Resta saber se será em número suficiente para causar um surto na Argentina”, afirmou o ministro de Saúde argentino, Jorge Lemus. (Com agências)

Testes dão maior agilidade


Depois de uma análise em tempo recorde, cerca de 20 dias, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a comercialização no Brasil de cinco testes, de uso em laboratório, para diagnóstico de doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. Três deles são capazes de detectar o vírus zika, relacionado à epidemia de microcefalia no Brasil. O tempo para o resultado varia de acordo com o produto: de algumas horas a até três dias, segundo a Anvisa. A partir da autorização para comercialização dos testes, publicada ontem no Diário Oficial da União, as empresas já podem começar a vendê-los. Os laboratórios que receberam o aval da Anvisa são o Euroimmun e o Quibasa.

Ontem, em Genebra, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reafirmou que está “preocupada” com o registro de uma transmissão do zika vírus por relações sexuais. No Texas, anteontem, as autoridades americanas confirmaram a descoberta que um dos pacientes em Dallas teria “provavelmente sido infectado por contato sexual”.
O paciente não viajou para regiões com o mosquito e, ainda assim, desenvolveu a doença. Agora, além de evitar as picadas do Aedes aegypti, as autoridades americanas alertam para que se evite contato com “sêmen de alguém que tenha sido exposto ao zika”.

“Estamos preocupados com este informe que aponta para transmissão sexual, já que esse seria o segundo caso em que uma pessoa que adquiriu o vírus por esse meio”, indicou a OMS. Outro caso, em 2014, na Polinésia Francesa também mostrou este tipo de contaminação. Um grupo de cientistas vai agora apurar o caso registrado nos Estados Unidos e tentar identificar como o vírus de fato trabalha.

Críticas Autoridades de saúde dos Estados Unidos afirmam que o Brasil O Brasil não está compartilhando informações suficientes sobre o zika vírus, segundo matéria publicada no site da revista Time. O texto revela a falta de dados para responder se o vírus é o responsável pelo aumento do número de bebês diagnosticados com microcefalia. Segundo a reportagem, a falta de acesso a esses dados frustra o esforço para desenvolver testes de diagnóstico, medicamentos e vacinas. Ainda segundo a revista, o problema estaria associado à legislação brasileira, que impede compartilhamento de material genético brasileiro.
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