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Estado de Minas

Cidadãos fogem ao estereótipo e provam que ainda existe honestidade

O EM mostra que no país em que a corrupção deixou de ser novidade, há brasileiros movidos pelo princípio de 'viver só com o que é seu'


postado em 31/01/2016 11:01 / atualizado em 31/01/2016 11:31

Em 1825, Honoré de Balzac estava perplexo com a Paris que crescia e chegava a 100 mil habitantes. Casos de roubos e golpes começaram a se proliferar na capital francesa e Balzac, como alerta, escreveu o Código dos homens honestos, um “guia para não se deixar enganar pelos larápios”, diz o título. Um século depois, na terra do samba, Noel Rosa lança o clássico Onde está a honestidade?. A letra, de 1933, questiona o enriquecimento de origem duvidosa de alguns. Em 2016, os exemplos de desonestidade citados por Balzac e a ironia de Noel, quem diria, viraram manchete de jornal.

O Estado de Minas foi atrás de cidadãos comuns com casos que, de tão raros nos dias atuais, se tornaram incomuns e dignos de destaque. A busca não se trata de uma disputa para ver quem é a viva alma mais honesta deste país. Vem no momento em que o brasileiro está descrente, sem saber se pode ou não confiar em alguém: o honesto virou raridade. Na Grécia Antiga, com uma lamparina em mãos, o filósofo Diógenes procurou elas ruas de Atenas “um homem honesto”, em plena a luz do dia. A reportagem também foi atrás de pessoas que, por muitas vezes, não deixaram a ganância nem o medo de prejuízos falarem mais alto que o caráter.

“Mas a honestidade virou notícia?”, assustou Homero Resende Castro, de 36 anos, para quem esse tipo de postura jamais deveria ser incomum. Ele é um das “agulhas” achadas pelo EM em meio a um palheiro. Balzac, em 1825, já alertava: “Quanto mais subir na escala social, mais os meios de adquirir a propriedade de outrem se tornarão sutis”. Quase 200 anos depois, o aviso é atual . A diferença é que, naquela época, o escritor se preocupava com ladrões de galinhas, arrombadores, golpistas. Hoje, a corrupção está no dia a dia, no trânsito, no comércio, naquele que fura a fila, no motorista que “compra” o policial e naquele que recebe a propina. Está no esporte e, exageradamente, na política.

Na semana passada, o Brasil registrou piora no ranking internacional da corrupção, compilado todos os anos pela Transparência Internacional. Segundo a Ong, o país está em 76º lugar em uma lista de 168 países – queda de sete posições em comparação ao ano passado. Na escala que vai de zero (considerado o mais corrupto) a 100, o Brasil aparece com 38 pontos.

O escândalo da Operação Lava-Jato foi um dos principais responsáveis pela queda no ranking. Para muitos brasileiros, a operação foi a gota d'água para a descrença, que cresce a cada nova delação e valores divulgados. Já são R$ 6,4 bilhões desviados. Antes disso, o mensalão foi o estopim, com R$ 101,6 milhões usados para compra de apoio de parlamentares. No futebol, outra decepção: esquema de corrupção envolvendo os presidentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desvios, pagamentos ilegais, contas na Suíça, pedaladas fiscais, roubo, assalto, mentiras. Porém, ainda há honestidade no Brasil e é ela que merece ser destacada.



(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
“Quando você é honesto, a honestidade te rodeia”
Wânia Trajano,
cirurgiã dentista, 57 anos


Sempre que viajava para Paraopeba, na Região Central, a cirurgiã dentista Wânia Trajano, de 57 anos, fazia uma parada em restaurante às margens da rodovia. Em 2008, em mais uma dessas pausas para comer um pão de queijo, Wânia achou uma bolsa da marca francesa Loui Vuitton no banheiro. “Procurei os responsáveis que ali estavam e eles disseram que não sabia de quem era”, recorda. Não restou alternativa: Wânia abriu a bolsa.

Dentro, um aparelho moderno de celular, cheques pré-datados, cerca de R$ 500 em dinheiro e, ainda, joias. “Refiz a última chamada do celular e um homem atendeu. Era o marido da dona da bolsa”, conta. O casal estava na estrada, próximo a Sete Lagoas. “Disseram que voltariam para buscar. Esperei. Mas como passou tempo demais, liguei de novo e eles disseram que buscariam a bolsa na minha casa, em Belo Horizonte.” À noite, eles não apareceram e, segundo Wânia, ela se sentia extremamente incomodada em estar com algo que não lhe pertencia.

“A mulher era revendedora de joias, por isso os cheques pré datados, brincos de pedras, colares, pulseiras. Eu estava tentando entregar, e eles não estavam tão preocupados. Somente no outro dia, eles me procuraram e resgataram o que tinham perdido”, recorda. Outro caso de Wânia foi na feira de artesanato da Afonso Pena. Ela achou uma carteira no chão e, quando vasculhou os documentos, descobriu que a dona era uma dentista. “Procurei a pessoa e fui ate à casa dela entregar. Quando entreguei, ela abriu a carteira e, antes de agradecer, perguntou: 'mas onde está o dinheiro?'”, conta, acrescentando que a pergunta não lhe desanimou. “Eu fui honesta”, diz.


Wânia é casada e tem duas filhas. Conta que tem como exemplo de honestidade o pai, que se preocupava muito em nunca ficar com objetos que não lhe pertenciam. “Tem faltado ao povo brasileiro referências. O que é errado virou o certo. As pessoas acham que a virtude é ser esperto, se dar bem”, comenta. Na profissão, Wânia diz não se lembrar de ter sido vítima de calotes. “Acredito muito em energia, quando você é honesto, a honestidade te rodeia”, conclui.


(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
“Acho que agir dessa forma é o normal”
Homero Resende Castro,
autônomo, 36 anos


Num sábado qualquer de 2007, o autônomo Homero Resende Castro, de 36 anos, estacionava seu Uno Mille na quadra de futebol onde jogava a tradicional “pelada” com os amigos, quando bateu num Toyota Corolla, parado na vaga ao lado. “Na hora pensei, 'estou ferrado'. Fui procurar o dono do carro, que estava no meio do jogo. Ele falou que ia olhar quanto ficava o conserto e me ligava”, conta. Uma hora e meia depois, veio a notícia. “O dono disse que pela minha honestidade, não me repassaria esse gasto”, afirma Castro.

Casado e pai de duas filhas, ele não vê nada de excepcional na situação nem se considera “100% perfeito”. “Acho que agir dessa forma é o normal. Essa pauta sobre pessoas honestas nem deveria existir”, reforça. Porém, reconhece o porquê de ela existir. “Hoje o mundo não é dos espertos, é dos desonestos. Há uma crise de moralidade, e não é só em Brasília”, afirma Castro, que tem na religiosidade sua referência. Historiador de formação, ele o trabalha na associação cristã Alvo da Mocidade, entidade que visa despertar a fé cristã na adolescência.

Histórias de honestidade atravessam a trajetória de Homero, que, mesmo sem se arrepender das atitudes, nem sempre teve bons resultados ao agir assim. “Honestidade é quando a pessoa assume as responsabilidades, sejam em situações boas e ruins”, afirma. Logo que casou, há 12 anos, descobriu que o antigo dono do apartamento tinha feito ligação clandestina na rede de energia elétrica. “Avisamos para a Cemig e eles nos mandaram a conta do 'gato' do ex-morador. Isso deu muita dor de cabeça e fomos até a Justiça”, explica.



No terceiro ano do ensino médio, ele constatou que a professora havia lhe dado dois pontos a mais na prova de química. A nota certa era 6, na média, e não os 8 pontos assinalados pela professora. Discretamente, avisou sobre o equívoco, mas a professora fez questão de exaltar o ato. “No fim da aula, ela contou para a sala inteira sobre a minha atitude e os colegas me chamaram de burro”, lembra Castro. Ah, e o Uno Mille? Deu lugar na garagem a um Honda Fit.



(foto: Edesio Ferreira/EM/D.A/Press)
(foto: Edesio Ferreira/EM/D.A/Press)
“Honestidade é viver com o que é seu”
Maurício Rizzo,
gerente de padaria, 60 anos


Todos os dias, passam em média 35 mil pessoas pela rodoviária de Belo Horizonte, no Centro da capital. Em feriados, esse número sobe para 100 mil passageiros. Em 5 de setembro do ano passado, véspera de feriado do Dia da Independência, não foi diferente. Maurício Rizzo, de 60 anos, estava no caixa da padaria que gerencia no terminal. “A pessoa fez a compra, guardou o dinheiro na bolsa e esqueceu a carteira em cima do balcão. Tinha a identidade, o cartão do banco e R$ 1,4 mil”, lembra. Foram mais de três semanas até localizar a dona, Maria do Carmo de Lima Paim, uma empregada doméstica que havia perdido o salário inteiro do mês.

Rizzo tentou achá-la nas redes sociais. Sem sucesso, pediu ajuda à Guarda Municipal, que acionou o banco até encontrarem a sortuda. “Fiquei muito feliz em entregá-la, porque esse dinheiro faz muita falta para quem vive de salário. Quando achamos a carteira, pensei que isso deve ter estragado o feriado dela. Se eu perdesse esse dinheiro, teria que pensar a quem eu teria que ficar devendo”, diz.

No dia da entrega, Maria do Carmo contou que pensou ter perdido o dinheiro dentro do ônibus. Ela presenteou Rizzo com doces e cachaça de Alpinópolis, no Sul de Minas, sua cidade natal. O gerente da padaria demonstrou ser, além de honesto, generoso, pois dividiu tudo com os funcionários. Rizzo afirma que não gostou da repercussão do caso. “Acredito que isso deveria ser atitude de todo mundo”, diz o gerente, mostrando o caixa. “O que é nosso está aqui dentro”, afirma.



Rizzo veio de família simples, que cresceu com o suor do trabalho. Os pais e avós os ensinaram o sentido da honestidade. “É viver com o que é seu”, diz. Mas não foi exatamente isso que ele se deparou ao trabalhar na rodoviária, dois anos atrás. “Infelizmente, tem muita gente que pede dinheiro para passagem e nunca viaja. Muita gente que fala que tem filho para alimentar. Gente que explora a boa fé das pessoas”, lamenta.


(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
(foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
“Isso é o nosso dever. Não é nenhuma vantagem”
André Anderson Rocha,
taxista, 34 anos

Há 12 anos como taxista em BH, André Anderson Rocha, de 34 anos, diz encontrar de tudo um pouco dentro do táxi e sempre tenta devolver ao passageiro. No fim do ano passado, uma devolução foi há mais complicada que ele já fez, pois demorou mais de uma semana para encontrar o dono. Em um domingo de dezembro, na madrugada, ele encontrou no banco de trás um iPhone e, como estava desligado, não sabia a quem pertencia. “Tinha pegado vários passageiros e, como deixei muitos em boates da capital, voltei aos estabelecimentos na tentativa de achar algum dos meus clientes”, conta. Mas a estratégia não deu certo.

André chegou a divulgar que tinha achado um celular nas páginas das casas noturnas nas redes sociais. “Como o celular estava desligado, comprei um carregador para poder ligá-lo. Quando ligou o aparelho, o taxista percebeu que ele estava bloqueado para chamadas. “Mas lia as notificações de Facebook recebidas no celular, então, fui atrás dos amigos dessa pessoa, até achá-la”, comenta.

O dono do aparelho era um baiano, que morava em Salvador e tinha vindo a BH a passeio. “Entrei em contato com ele, que já tinha voltado para a Bahia, e combinei de entregar via correio. Mas ele pediu para entregar a um amigo que mora em BH. E foi assim que devolvi o que achei”, conta. De acordo com André, não é raro passageiros deixarem carteiras, celulares, chaves e documentos dentro dos táxis. “Sempre vou atrás para entregar. É mais fácil quando a pessoa é cadastrada na cooperativa de táxi. Quando não é e não consigo achá-la, deixo o que encontrei na BHTrans”, explica. Para ele, coisas assim não são para se gabar ou elogiar. “Isso é o nosso dever. Não é nenhuma vantagem. Se o objeto não é meu, o certo é devolvê-lo: o que é da gente é da gente. Temos que ser sempre honesto”.


Valores construídos pela educação

Onde está a honestidade? Certamente, esse valor não é encontrado em apenas um “lugar”, tampouco está restrito a apenas uma definição. Ela está em mim, na relação com o outro e também com a coletividade. Tem a ver com transparência, mas nem sempre com a verdade. Embora o conceito do que é ser honesto seja complexo, filósofos concordam que isso passa, necessariamente, pela educação.

“Não acredito que os tempos estejam piores ou melhores. Acredito que a educação total, não somente a formal, construa alguns valores na sociedade, como a igualdade e a justiça, que ajudam a pessoa a ser mais honesta. Uma sociedade com mais igualdade e mais oportunidades costuma ter menos desvios por corrupção”, afirma a professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Telma de Souza Birchal.

Segundo a professora, há uma série de nuances em torno da honestidade. “Um aspecto é a transparência, mostrar quem você é e não enganar o outro”, cita. Mas a professora também pondera: “Toda questão ética tem que ser contextualizada. Uma pessoa que rouba passando fome não é o mesmo roubo de que o faz por ganância”.

Para Telma, falar a verdade não é uma condição para a honestidade. “No caso, por exemplo, de um paciente terminal, não falar uma verdade pode trazer menos sofrimento e se evitar um mal maior”, exemplifica.

Consciência

O também professor do Departamento de Filosofia da UFMG Marcelo Marques explica que a honestidade se apresenta em vários níveis e implica um grau de consciência de si. “É pensar, refletir, reconhecer a si mesmo. Saber o que considero certo e errado, ser capaz de avaliar a mim mesmo”, reforça.

Ser honesto é também ter consciência do outro, de acordo com o professor. “A honestidade tem a ver com o ser verdadeiro em relação a mim mesmo e ao outro. Reconhecer e agir de acordo com o que sei”, afirma Marques. Em certos momentos, entretanto, isso pode ir contra regras estabelecidas pela sociedade. “Você não cumpre a lei por compreender, por exemplo, que ela seja injusta”, explica.

Conhecimento e sabedoria têm a ver com honestidade, na avaliação do filósofo. “Se não souber, não sei se há desonestidade. Há um limite entre a desonestidade e a incompetência. Se errei na conta da contabilidade da empresa porque não sabia, não estou sendo desonesto”, diz. Ele também defende que o ser humano tem que ser educado para se tornar o que ele é. “Tem jeito de não ser bom, por isso que a educação é decisiva”, afirma.

OUTROS CASOS

Na quinta-feira, 21 de janeiro, o comerciante Robson Campos achou uma bolsa com R$ 3.980 no chão, em Porto Seguro, no sul da Bahia. Acompanhado da mulher, o homem encontrou a quantia na porta da loja dele e resolveu procurar pelo dono. Além do dinheiro, na bolsa havia um celular, cartões, documentos e uma conta de água, que foi o caminho para o encontro da proprietária. Robson a encontrou e soube que os mais de R$ 3 mil eram para pagar a conta de cartão de crédito. A mulher agradeceu muito pela honestidade do comerciante.

Em 2004, o auxiliar de serviços gerais Francisco Basílio Cavalcante, na época com 55 anos, trabalhava no aeroporto de Brasília e, na sua última inspeção pelos banheiros do aeroporto, no plantão de uma quarta-feira, encontrou uma bolsa de couro. Dentro dela, além de passaportes e documentos pessoais, havia a quantia de R$ 30 mil. E, mesmo com a conta de luz atrasada da sua casa, Francisco chamou o seu chefe e, com a documentação do passageiro em mãos, avisaram pelo alto-falante do terminal. Os US$ 10 mil pertenciam a um turista suíço , que conferiu as notas de US$ 100 e os US$ 10 mil estavam intactos. “Não tem coisa melhor na vida do que chegar em casa e dormir sem peso na consciência, sem ter prejudicado ninguém. É só isso que quero pra mim e pra minha família”, disse Francisco na época, em entrevista ao jornal Correio Braziliense.

No início deste ano, em Porto Alegre, a assistente de serviços gerais Vera Lúcia dos Santos da Rosa, 55 anos, ao começar sua rotina de limpeza no prédio da Secretaria dos Transportes do Estado. Na faxina, ela encontrou um montinho de dinheiro em cima de uma cadeira e algumas notas no chão. Mesmo estando sozinha na sala no momento e sabendo que se tratava de uma grande quantia, Vera imediatamente chamou o estagiário e entregou o bolinho de notas, no valor de mais de R$ 800, a ele. O dinheiro pertencia a um empresário, que ficou satisfeito com a postura de Vera.


SAIBA MAIS


Diógenes (413 – 323 a.C.) nasceu em Sinope, cidade costeira da região da Turquia. Foi um filósofo da Grécia Antiga, exilado de sua cidade natal, mudou-se para Atenas. Tornou-se mendigo fazendo da pobreza extrema uma virtude. Dizem que viveu num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando procurar por um homem honesto. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, sua vida consistiu duma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta.

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