Brasília, 21 - Amostras de sangue do povo indígena ianomâmi coletadas sem autorização por pesquisadores norte-americanos foram repatriadas ao Brasil e entregues, nesta segunda-feira, 21, pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao líder da tribo, Davi Kopenawa.
Esta é a segunda remessa do material ao País após um acordo de cooperação internacional, e ainda não esgota a busca pelas coletas. O sangue foi coletado na década de 60 por um antropólogo e um geneticista norte-americanos, sem autorização da população ou do governo brasileiro, e levado aos Estados Unidos para pesquisas. Não há conhecimento sobre o resultado dos trabalhos.
Na cultura ianomâmi, contudo, o sangue constitui restos mortais e deve seguir as cerimônias funerárias para garantir a paz dos mortos e também respeitar a tradição. "Enquanto o sangue da pessoa está presente neste mundo, aqueles que estão vivos sentem a presença 'repartida'. É um ritual de passagem", explicou a coordenadora da Câmara do MPF que atua na defesa dos povos indígenas e de comunidades tradicionais, Deborah Duprat.
De acordo com a procuradora, a Venezuela - que também abriga a etnia - começou a fazer acordos semelhantes ao Brasil para repatriar o material sanguíneo coletado. O procurador-geral da República disse que é dever da instituição "cuidar e proteger o patrimônio cultural do País, as tradições e costumes indígenas". "O Ministério Público é multifacetário. A vida do Ministério Público não se esgota em Lava Jato, a vida do Ministério Público se esgota nessa enorme diversidade de atribuição que nós temos e que desempenhamos com igual perspicácia", disse Janot.
A coleta entregue nesta terça, 21, ao povo ianomâmi, com certa de 474 amostras, foi enviada pelo Instituto Nacional do Câncer americano.