Mas, segundo especialistas, há uma ligação causal entre a ocupação nos 12 municípios do Cantareira, e destruição da mata ciliar de seus 8.171 km de rios, e o esgotamento do sistema. Choveu menos no último ano, mas, se a mata nativa ainda estivesse lá, os reservatórios poderiam ter mais água - e de melhor qualidade. A chuva não cairia sobre um solo tão seco, com o consequente efeito "esponja". A vegetação funcionaria como uma válvula, controlando a vazão e evitando inundações como a de 2011 - quando as comportas tiveram de ser abertas - e falta de água, como a de agora.
Técnicos da Embrapa Informática e da GV Agro propõem o plantio de 30 milhões de mudas para recompor a mata ciliar em 34 mil hectares, de modo a obedecer a faixa prevista pelo novo Código Florestal - que a reduziu, porque passou a medir a Área de Preservação Permanente (APP) a partir do leito regular do rio, e não mais de sua largura máxima. Para chegar a esses números, eles analisaram as imagens do satélite Rapid Eyes, que registra objetos de no mínimo 5 metros, explica Eduardo Assad, autor da proposta.
A mata ciliar evita o deslocamento do solo, chamado de erosão, seu transporte pelos rios e depósito nos reservatórios, ou assoreamento. Segundo a Sabesp, estudo de 2009 mostrou que não havia assoreamento no Cantareira. A mata ciliar filtra os sedimentos trazidos pelas enxurradas, evitando que poluentes, como os agrotóxicos usados nas fazendas, comprometam a qualidade da água.
Orvalho
Entretanto, explica o especialista Antonio Carlos Zuffo, da Unicamp, a vegetação exerce esse papel não tanto na beira dos rios, onde o solo já está encharcado, mas um pouco mais longe, até mesmo nos topos de morros, onde ela também intercepta a umidade trazida pelas nuvens, que condensa na forma de orvalho e desce subterraneamente até as nascentes. Será preciso ir além da mata ciliar. Zuffo propõe, por exemplo, o plantio direto, em vez do arado, como forma de evitar a compactação.
Ricardo Rodrigues, da Esalq, a Escola de Agronomia da USP, acha que não é necessário plantar 30 milhões de mudas. Onde houver vegetação por perto, é possível induzir a regeneração natural. Com base em sua experiência com recomposição de florestas, Rodrigues estima que 50% da área precisaria de plantio total, com custo médio de R$ 9 mil por hectare; 25% se regeneraria sozinha, ao custo de R$ 2 mil/ha.; os restantes 25% requereriam enriquecimento com espécies, o que custa R$ 3 mil/ha. Caberia aos fazendeiros cercar o gado.
Por esse cálculo aproximado, o projeto custaria R$ 195,5 milhões. Bilhões de reais devem ser gastos nas obras de engenharia anunciadas pelo governo. Só a transposição entre as Represas Jaguari, da Bacia do Paraíba do Sul, e Atibainha, do Sistema Cantareira, está estimada em R$ 830,5 milhões. Para Assad e Rodrigues, a recuperação da mata nativa começaria a ter efeitos sobre o Cantareira em cinco anos.
A relação entre a vegetação e as chuvas em regiões de Mata Atlântica, como a do Cantareira, ainda está sendo estudada cientificamente, afirma o meteorologista Carlos Nobre. Na Amazônia, já foi provado o efeito da transpiração das árvores. Ontem, mesmo sem chuva, o manancial teve a 16.ª alta e chegou a 10,2% da capacidade.
A Sabesp incentiva o plantio de mata nativa no entorno das represas, por empresas que precisam fazer compensação ambiental. A Dersa plantou 1,13 milhão de mudas em 554 hectares.
Em Bragança Paulista, onde restam apenas 11% de cobertura vegetal, o prefeito Fernão Dias (PT) criou um programa no qual os infratores ambientais regularizam sua situação bancando o plantio de árvores. "Em menos de dois anos, já fizemos mais de 30 mil plantios." O prefeito acha provável que haja resistência dos condomínios e fazendeiros a um eventual programa de recomposição da mata ciliar. "Eles perderão boa parte de sua área, mas se trata de um momento emergencial, em que o Brasil não pode manter um benefício individual em detrimento do coletivo." .