"Uma vez, Marco pediu ao diretor para matá-lo no dia seguinte, já que o caso não teria perdão. Ele respondeu, com um sorriso cínico, que adoraria, mas que o presidente ainda não tinha dado a ordem. Numa prisão em que estavam donos de laboratório de drogas sintéticas e reis da heroína, ele era peixe pequeno".
Ludibriado por um advogado oportunista, ele contou, foi condenado, e o caso acabou agravado por uma agressão a um policial e uma tentativa de fuga. Archer era o companheiro de cadeia mais próximo desde que eles foram transferidos para a ilha de Nusakambangan - onde iria se dar a execução. Paradoxalmente, mesmo presos no corredor da morte, segundo Paez, podem passar o dia todo fora das celas, praticar esportes e ver TV a cabo (mediante suborno). Ele lembra que o estado de espírito do carioca era oscilante. Por vezes, refugiava-se na metanfetamina, droga sintética que comprava de guardas corruptos, para escapar da realidade. "Era um cômico, se vestia de mulher, botava maquiagem, fazia todo mundo rir", recorda-se.
Já Rodrigo Gularte, paranaense condenado à morte por tráfico internacional com quem também conviveu (entrou em Jacarta com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surfe, em 2004, e pode ser executado em breve), tinha dias mais sombrios. "Ele se isolou numa bolha, não se relacionava com ninguém. É uma forma de se proteger daquela escória."
O sono de Paez, que hoje vende produtos cultivados na fazenda do irmão e aluga imóveis para veranistas, se tornou tortuoso desde a cadeia, e piorou com as notícias sobre a execução de Archer. Ele não se conforma com as contradições da Indonésia quanto à venda e uso de drogas. "Nada na Indonésia faz sentido. Quem vende a droga é a polícia.
Archer morreu aos 53 anos; Paez faz 60 em dezembro. Ele aprecia cada vez mais a liberdade. "Dou mais valor a tudo na vida. Quero desencorajar qualquer jovem que esteja pensando em usar droga e dizer que não leva a nada. A família do Marco era rica, ele não precisava disso." Paez e outros amigos de Archer, ou Curumim, apelido pelo qual era chamado em Ipanema, onde cresceu, estão em contato com a tia dele, Maria de Lourdes Archer, única parente próxima viva (pais e irmão morreram), para que parte de suas cinzas seja jogadas no mar do Arpoador, que ele frequentava..