Jornal Estado de Minas

Prefeitura de SP apura ação de fiscais em obra que desmoronou

Investigação aponta falhas na fiscalização por parte da prefeitura

Agência Estado
Problemas haviam sido denunciados por fiscal da prefeitura em março de 2013 - Foto: REUTERS/Nacho Doce
A Prefeitura de São Paulo investiga a possibilidade de fiscais terem recebido propina para ignorar as irregularidades na obra do prédio que posteriormente desabou e acabou matando 10 pessoas em São Mateus, na zona leste da capital. Os documentos mostram falhas na fiscalização e a denúncia de um agente vistor, que relatou ter ouvido do proprietário do imóvel que a construção seguia por causa de um “acerto”.

Em 26 de março, após ter embargado a obra e aplicado duas multas no total de R$ 104.659, o fiscal Valdecir Galvani de Oliveira denunciou as irregularidades na obra no site do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC). Na ocasião, ele registrou que pretendia comunicar a Polícia Civil, o Ministério Público e a Ouvidoria de que o embargo não estava sendo obedecido. “O agente vistor dá conta de que o proprietário não está se importando com a ação dele, (que o proprietário) diz que está tudo resolvido, que tem um acerto com a Prefeitura”, disse o prefeito Fernando Haddad (PT), durante entrevista coletiva convocada ontem à tarde.
Um dia depois da denúncia no site, o fiscal Oliveira imprimiu o documento e anexou ao processo da obra na Subprefeitura de São Mateus. Misteriosamente, no dia 4 de abril, o agente vistor pediu exoneração do cargo sem fazer as denúncias prometidas.

Pela regra, caso a obra continuasse mesmo após o embargo do fiscal, a Subprefeitura de São Mateus deveria ter voltado ao local para fazer o embargo com ajuda policial. No entanto, isso não foi feito. “O que tem é um despacho do supervisor técnico (chamado Décio Soares de Lima), chefe dele (Galvani), dizendo que naquele período de 30 dias (o embargo da) obra foi respeitado”, afirma o secretário municipal das Subprefeituras, Chico Macena (PT).

De acordo com o secretário, há indícios de uma segunda falha na fiscalização. “Em junho, quando a obra foi totalmente indeferida, automaticamente isso gera uma fiscalização. Não consta nos autos também essa fiscalização”, afirma Macena.

Toda a documentação foi encaminhada para investigação pela Procuradoria-Geral do Município. O subprefeito de São Mateus, Fernando Elias Alves de Melo será um dos ouvidos pela Controladoria. A Prefeitura quer saber se alguém substituiu o fiscal que pediu exoneração e o motivo de a obra ter continuado após o embargo. A reportagem não localizou o fiscal Valdecir Oliveira e o supervisor dele, Décio Lima.

A Prefeitura afirma que a segurança na obra seria de responsabilidade do proprietário, Mostafá Abdallah Mustafá, ou do responsável técnico pela obra, a arquiteta Rosana Ignácio Januário.

O advogado de Mustafá afirmou anteontem que prestaria esclarecimentos sobre o caso ontem, após verificar documentos. No entanto, não atendeu ligações ontem à noite, após as informações apresentadas pela Prefeitura. A arquiteta Rosana não foi localizada.

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) informou que também investiga a atuação da arquiteta. As plantas assinadas por ela têm só o térreo, mas a construção que desabou tinha dois pavimentos.