Jornal Estado de Minas

Crime bárbaro

Cabo morta em chacina denunciou colegas

Coronel revela que Andreia Pesseghini acusou policiais de envolvimento no roubo de caixas eletrônicos e diz não acreditar que filho dela seja o assassino

Para a polícia, o filho Marcelo continua sendo o principal suspeito da morte dos pais, Andreia e Luís Marcelo - Foto: Arquivo pessoal / Reprodução
O comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar de São Paulo, coronel Wagner Dimas, afirmou ontem que a cabo da PM Andreia Regina Pesseghini, de 36 anos, havia denunciado colegas policiais por envolvimento com roubo a caixas eletrônicos. Ela e quatro familiares foram encontrados mortos com tiros na cabeça na segunda-feira dentro de casa, em Brasilândia, Zona Norte da cidade. O coronel, que era chefe de Andreia, diz que apenas um grupo restrito de policiais sabia da acusação feita pela policial.
Dimas não descartou a possibilidade de o crime estar relacionado com a denúncia feita pela policial e disse não "estar convencido" da versão apresentada até agora pela polícia de que o filho de Andreia, Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, de 13 anos, tenha matado toda a família e depois se suicidado. Os corpos foram achados em casa, todos com tiros na cabeça. Luís Marcelo Pesseghini, de 40 anos, era sargento da Rota. A mulher era cabo do 18º Batalhão. As outras vítimas moravam na casa nos fundos: a mãe dela, Benedita Bovo, de 65 anos, e a tia, Bernadete Silva, de 55.

O comandante diz que a cabo nunca relatou à PM que estava sofrendo qualquer tipo de ameaça. Ainda segundo o coronel, a investigação não chegou a nenhuma conclusão, mas alguns policiais foram transferidos para o setor administrativo ou transferidos.

O delegado do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, Itagiba Franco, disse ontem que estão praticamente descartados outros suspeitos para a chacina que não seja o estudante Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini. "Respeitamos a família, mas vamos trabalhar e, se comprovarmos que foi o menino, paciência", disse. Na madrugada de ontem, policiais acharam na casa três armas que estavam guardadas. "Se alguém de fora da família tivesse entrado, certamente teria levado as armas", argumentou. Ele também confirmou que havia sangue na roupa do garoto. "As roupas das vítimas estavam ensanguentadas, mas não havia nada no chão, nem pegadas. As manchas estavam resumidas às vítimas, colchões e travesseiros. Nada nas paredes, no chão", acrescentou.

Sepultamento da família aconteceu em cerimônia fechada em Rio Claro, em SP - Foto: Adriano Lima / Brazil Photo Press / Estadao Conteudo
Segundo Franco, o menino usava uma camiseta branca, com sangue dele. Não haveria sangue de outras vítimas. Seria a mesma camiseta que o rapaz usava sob a jaqueta que ele veste no vídeo que o mostra chegando a sua escola. O delegado afirmou que a família já estava morta quando o menino dormiu no carro. "O menino tinha una doença (fibrose cística), tomava remédios. Você acha que os pais deixariam a criança passar a noite toda fora, sendo que não eram desleixados? Ele (Marcelo) sabia que eles estavam mortos. Isso é evidente", afirmou.

Veja vídeo em que o garoto é visto indo para a escola



Luva

Franco disse desconhecer a informação, dada pelo coronel Wagner Dimas, de que a cabo havia colaborado nas investigações sobre PMs envolvidos em roubo de caixas eletrônicos. "Ontem (anteontem) o comandante-geral da PM disse isso, que foi investigado e que nada foi comprovado", afirmou. Sobre informações de que Marcelo tinha um hematoma no braço, o que indicaria uma agressão, o policial disse "que isso só será possível saber após a conclusão do laudo pericial".

A polícia encontrou ontem também uma luva cirúrgica dentro do carro da família. O que se investiga é se ela foi usada no crime. "Ele usou o carro, dormiu dentro do carro e pode ter usado a luva”, analisou.

Condenado na rede

Em menos de 24 horas, desde que a polícia divulgou que o maior suspeito da chacina familiar em Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, é o garoto Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini, de 13 anos, sete perfis falsos do menino foram criados no Facebook. Quatro deles usaram a mesma foto de perfil do original, já retirado do ar: a imagem do protagonista da série de videogames Assassin’s Creed, Ezio Auditore. O mais antigo deles, criado na tarde de terça-feira, acumulava 1.379 curtidas às 17h de ontem. Até o início da noite, estavam no Facebook também três comunidades com os títulos “Eu não acredito na culpa de Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini”, “Não foi o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini” e “Foi sim o Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini”. A maioria deles destinava-se a condenar o garoto, incluindo xingamentos. Alguns usuários postaram que estavam denunciando o perfil falso e as comunidades ao Facebook, outros criticavam a iniciativa: “Que isso, gente, fazer um ‘face’ só para curtir com a desgraça dos outros? É ridículo”, dizia um deles.