Jornal Estado de Minas

Familiares e amigos se despedem de atleta da seleção que morreu em Santa Maria

Alessandra Mello

Em clima de comoção foi enterrada ontem mais uma vítima do incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), que conta 236 mortos. Matheus Rafael Raschen, de 20 anos, estava internado desde domingo no Hospital de Pronto-Socorro de Porto Alegre. Ele tinha queimaduras de terceiro grau em quase 50% do corpo. Permanecem internadas em estado crítico 65 pessoas com risco iminente de morte, segundo boletim do Ministério da Saúde. Ao todo, 124 pessoas estão em hospitais do Rio Grande do Sul.

O corpo do estudante de engenharia de alimentos, que se formaria este ano, foi velado na quadra de basquete do Corinthians, em Santa Cruz do Sul, time pelo qual ele atuou e que, segundo amigos e parentes, era uma de suas paixões. O enterro foi realizado às 18h. Com 1,90m de altura, Matheus foi ala-armador nas categorias de base do Corinthians, tradicional clube de basquete gaúcho, campeão brasileiro de 1994 sob comando do técnico Ary Vidal, que morreu um dia depois da tragédia, aos 77 anos. Em 2010, ele chegou a capitão da seleção gaúcha sub-18 e atuou também na seleção brasileira da mesma categoria.

Uma fila enorme de pessoas se formou na entrada do ginásio para se despedir do garoto. O caixão foi colocado logo abaixo da tabela de basquete da quadra e coberto com as bandeiras do Grêmio e de seu time de basquete. Segundo relatos de sobreviventes da tragédia, Matheus estava na área externa da boate quando o fogo começou e conseguiu sair rapidamente, mas resolveu voltar para ajudar os amigos e ficou bastante ferido. Matheus era o caçula dos três filhos de Nestor Raschen, vice-diretor do Colégio Mauá, em Santa Maria. Ele já havia perdido o filho do meio há três anos devido a problemas de saúde.

RESPONSABILIDADE As causas da tragédia estão claras e o momento agora é de apontar responsabilidades, afirmou ontem o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT). “A boate tinha superlotação, os trabalhadores da segurança não estavam treinados para enfrentar acontecimentos dessa natureza e foi usado um instrumento pirotécnico totalmente proibido, ilegal, por opção completamente individualizada de uma pessoa ou de um grupo. O inquérito tem que procurar agora a cadeia de responsabilidades”, disse Tarso.

Para o governador, é preciso verificar “se qualquer autoridade pública, seja do estado, da União ou do município, tinha de realizar algum ato e por vontade ou por inércia não realizou”. “Todo governo deve estar preparado para qualquer consequência que tenha natureza judicial”, disse o governador.

 “Que essa tragédia sirva para que as autoridades sejam mais rigorosas e usem do bom senso mesmo que as formalidades legais estejam estabilizadas, porque a gente sabe que às vezes existe uma certa confusão normativa”, afirmou, ao comentar o fato de prefeituras de todo o Brasil estarem interditando casas por causa de risco de incêndio.

Ainda ontem o Ministério Público do Rio Grande do Sul se manifestou a favor da prorrogação da prisão temporária dos envolvidos na tragédia. A Polícia Civil pediu a prorrogação por 30 dias da detenção de Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, sócios da boate, e de Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão, da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava na casa na noite do incêndio. A decisão sobre a prorrogação da prisão, no entanto, cabe à Justiça.

 

MAU EXEMPLO OFICIAL

Um sinal sobre o pouco caso com prazos de alvarás está estampado nas paredes da Prefeitura de Santa Maria e no prédio onde funciona a delegacia regional de polícia. Em ambos, as inspeções dos bombeiros estão vencidas. No prédio onde funciona o gabinete do prefeito, o alvará está vencido desde 26 de janeiro. É o que mostra o documento afixado ao lado do elevador que sobe para o gabinete do chefe do Executivo. A prefeitura não se pronunciou a respeito. No caso da delegacia, o alvará venceu em 4 de janeiro. O delegado Oscar dos Santos Jr., do Departamento de Polícia do Interior, disse que ela fica em um condomínio e que teria que consultar o síndico do prédio para saber se uma nova vistoria já foi solicitada.