Fazer o diagnóstico, contudo, pode ser bastante complicado justamente porque não é comum enxergar os homens praticando condutas alimentares patológicas. “Até quem padece do mal custa a enxergar que está vivendo um problema”, avalia a médica.
Para a psiquiatra Ana Ermínia Pedrosa, a obsessão masculina com a estética corporal, com a balança e a conquista de um corpo perfeito, magro ou cheio de músculos, é um componente importante no desenvolvimento dos transtornos alimentares nos homens. Contudo, não é o único fator. Tanto nos homens quanto nas mulheres, questões biológicas, genéticas, ambientais, socioculturais e psicológicas estão associadas, tornando as doenças bastante complexas.
No aspecto biológico, a puberdade e a obesidade podem influenciar. Já nos quesitos socioculturais e psicológicos, a pressão da mídia, dos pais e amigos, e de algumas profissões, assim como perfeccionismo ou o uso de álcool e drogas, favorece o desenvolvimento do distúrbio alimentar.
A manorexia, a versão masculina da anorexia, segundo Rosário, pode se apresentar na forma de restrição alimentar pura, uma preocupação exagerada com a composição calórica e com a preparação dos alimentos ou na forma purgativa. “Nas duas formas, aparecem também o medo de ganhar peso e uma perturbação na imagem corporal”, diz. A especialista lembra que existem poucos estudos no mundo que avaliam a relação entre os homens e este distúrbio, mas estima-se atualmente que o público masculino represente de 15% a 20% do total de casos de anorexia nervosa e bulimia nervosa, ou seja, em cada cinco pessoas com essas patologias, uma é homem.
A compulsão alimentar seguida de compensação por vômitos, características da bulimia em mulheres, ocorre também nos homens. O abuso de substâncias medicamentosas para emagrecer e a prática de atividade física exagerada são outros sintomas desse transtorno no sexo masculino. Diferentemente das mulheres, as complicações nos homens estão mais relacionadas à desidratação, hipotensão arterial, maior perda óssea e uma significativa queda na produção de testosterona.
Obsessão
Nos casos de transtorno da compulsão alimentar periódica (TCAP), os homens apresentam um comportamento impulsivo por comida, que não é seguido por alguma forma de compensação, como no caso da bulimia nervosa. A médica observa que os homens deste grupo manifestam um grau de obesidade relevante. “Os casos masculinos de TCAP representam até 40% do total de pacientes com esse transtorno.”
Já a vigorexia configura a obsessão por aumentar a massa muscular. As características mais comuns são preocupação exagerada com o corpo, distorção da imagem corporal e baixa autoestima. “Existe uma ansiedade excessiva pela atividade física, abuso de complementos alimentares, proteínas e aminoácidos, assim como pelo consumo de substâncias ergogênicas, como os anabolizantes, para obter ganho muscular”, comenta a especialista. “E isso, claro, pode ser prejudicial à saúde, uma vez que esse tipo de suplemento provoca múltiplos efeitos colaterais. No caso do abuso de anabolizantes, pode levar até a quadros cardiovasculares e psiquiátricos grave.”
Para Ana Ermínia, realizar diagnóstico precoce é fundamental, assim como propiciar o tratamento adequado. “É a melhor maneira de evitar que o quadro se torne perigoso, podendo levar a pessoa à morte.”
Manorexia
Normalmente associados às mulheres e grupos compostos por modelos e homossexuais, os distúrbios alimentares vêm mudando de padrão e já é possível observar inúmeros homens de diversas profissões, nível escolar e opção sexual em busca do tratamento contra a manorexia. Normalmente, eles buscam atendimento médico por outros sintomas desencadeados pela patologia e não pela doença em si. Assim como ocorre com as mulheres, o homem anoréxico se recusa a comer, cultua a magreza como estilo de vida e não compreende os sérios riscos que a doença pode provocar. A manorexia pode ocasionar anemia, queda de proteína, falta de interesse sexual, cansaço, baixo rendimento escolar e profissional, além de aumentar o risco de doenças cardíacas.
Vigorexia
Também chamada de síndrome de Adônis (em uma referência ao herói grego famoso por sua beleza) ou de anorexia reversa, a vigorexia frequentemente faz com que suas vítimas abandonem o trabalho e os relacionamentos para se dedicarem à incessante busca pelo corpo perfeito. É uma patologia predominantemente masculina e, por se tratar de fenômeno mais recente, essa doença ainda não dispõe de dados estatísticos. O excesso de exercícios começa a levar a alterações hormonais e a grandes descargas de adrenalina e endorfinas que geram dependência química pela atividade. A sobrecarga de exercício gera uma síndrome orgânico-sistêmica que leva ao aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, a arritmias e a distúrbios alimentares, que, por sua vez, desencadeiam anemia e deficiências vitamínicas. Tudo isso sem falar nas chances de lesões do aparelho locomotor.