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Estado de Minas

Arquitetos transformam pontos de ônibus em arte, no Distrito Federal

Ideia é criar intervenções urbanas para que as pessoas se sintam melhor enquanto esperam o coletivo passar. Locais acolhedores já conquista adeptos


postado em 29/02/2012 08:50 / atualizado em 29/02/2012 10:48


Para quem depende de ônibus todos os dias, as paradas são um local importante na rotina. Lá, essas pessoas passam pelo menos alguns minutos diariamente, a depender da demora da linha, e, na maioria das vezes, não se sentem à vontade. Com aspecto sujo, pichadas, com muitas propagandas pregadas umas em cima das outras, as paradas de ônibus não são muito convidativas. Algumas pessoas preferem esperar o ônibus em pé, mesmo quando os assentos estão vazios, pela falta de comodidade.

É por isso que a empregada doméstica Francidalva Vivaldi da Costa, 32 anos, se surpreendeu ao encontrar o ponto de ônibus em frente ao Hospital Santa Helena coberto de corações em preto e branco. “Fiquei pensando: quem teve essa ideia tão boa para deixar a cidade mais bonita?”, comentou. Francidalva acredita que as paradas deveriam ser pontos de acolhida aos usuários do transporte público, o que acontece com raridade.

A resposta ao questionamento dela é uma iniciativa popular. Um grupo de amigos imaginou uma forma de tornar a cidade mais agradável e não demorou a colocar o plano em prática. Os arquitetos Igor Lacroix, 30 anos, e Gustavo Goes, 28, fazem mestrado na Universidade de Brasília (UnB). Durante uma tarde em que pensavam num trabalho do curso, começaram a amadurecer a ideia de uma intervenção urbana. “Arquitetura também pode ser arte”, diz Igor.

Primeiro, cogitaram transformar orelhões e lixeiras. Mas nada pareceu melhor que a parada de ônibus, pontos superexpostos no Plano Piloto. Munidos de papel, cola, um balde e boa vontade, em pouco mais que duas horas eles transformaram o visual do local e animaram o dia de pessoas como Francidalva. O resultado deixou os dois satisfeitos e ajudou a alimentar a empolgação para dar continuidade ao trabalho.

Durabilidade
A parada da 612 Norte recebeu tratamento especial. A cola usada é feita de farinha de trigo e eles mesmo produzem. Como é à base de água, ela se dissolve e não estraga a pintura original. Ainda assim, eles tomam o cuidado de só metamorfosear os locais mais degradados. Brasília tem 587 pontos de ônibus. Destes, apenas 384 possuem uma estrutura, os chamados abrigos. O número inclui aquelas paradas feitas de vidro e alumínio, mais recentes, que não entram no foco do grupo.

“A intenção não é fazer nada que dure, permanente”, define Gustavo Goes. “Dever de cidadão é jogar lixo no lixo. Essa é a função do governo. A gente acredita nos valores como amor, beleza e verdade. É por isso que fazemos, mesmo apesar de tantos impostos que pagamos.” Frequentemente, quem passa pelo local pergunta quem está pagando pelo serviço. Gustavo e Igor explicam que não pretendem ganhar dinheiro em troca do que fazem. Já receberam propostas de dar continuidade ao trabalho incluindo uma logomarca nos desenhos, mas recusaram.

Um patrocínio, entretanto, seria muito bem-vindo. A intenção é fazer a transformação de todas as paradas de concreto do Plano Piloto até o aniversário da cidade, em 21 de abril. Cada uma dessas operações de revitalização custa cerca de R$ 90, incluindo papel, impressão e cola. A ação é bancada pelos próprios entusiastas da ideia.

Colaborações
Igor e Gustavo ganharam a companhia de vários amigos para a empreitada. Das oito produções realizadas até agora, o fotógrafo e empresário Bruno Bernardes, 33 anos, colaborou na metade. Ele documentou as ações de que participou. Na parada do Setor Comercial Sul, em frente ao shopping Pátio Brasil, o grupo montou um caça-palavras. Bruno criou uma imagem e postou-a em uma rede social. Em poucos minutos, começaram a aparecer sugestões de palavras a serem incluídas no jogo. “É muito legal que ninguém nunca tenha reclamado do que estávamos fazendo. Muita gente passa e pergunta se pode ajudar. Muitos garis, inclusive. Mesmo quem não pode participar pessoalmente manda a colaboração via rede social”, anima-se Bruno.

O fotógrafo relata um episódio em que havia se afastado dos amigos para enquadrar melhor a imagem com a câmera e foi abordado por uma senhora, pensando que ele fotografava para denunciar o grupo. “Ela me pediu para que eu não delatasse ninguém, porque ela tinha achado o trabalho muito bonito.” No começo, os amigos ficavam preocupados em ser confundidos com pichadores, mas isso nunca aconteceu. Ganharam até acenos dos policiais que faziam rondas noturnas na região em que eles estavam.

A ideia é ampliar o plano. A arquiteta Simone Turíbio, 33 anos, é uma das ativistas mais engajadas do grupo. “As ruas só serão bons lugares para que todos convivam quando as pessoas usarem o espaço público”, defende. Para Simone, as pessoas só vão cuidar da própria cidade quando gostarem dela. Ainda de acordo com a arquiteta, falta muito para que as superquadras de Brasília pareçam mais movimentadas. Mas o grupo não está perdendo tempo para mudar a parte que lhe cabe nessa transformação. Outras ações devem vir, mas eles preferem não adiantar nada, para que a novidade surpreenda tanto quando a primeira.


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